sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pessoas normais: um bicho de sete cabeças

De modo geral, quem se interessa em conhecer o TAB? Médicos? Bipolares? Parentes de bipolares? Mas de quem costuma vir o preconceito? Dessas pessoas? De modo algum...

Nesse caso, a quem temos de falar para reduzir o estigma? Respota: a todos aqueles que não sejam médicos, bipolares ou parentes de bipolares.

Quem é psiquiatra ou psicólogo, aprenderá porque faz parte de seus estudos na universidade. Quem é bipolar, aprenderá porque quer entender melhor o que o aflige. Quem é parente de bipolar, aprenderá porque se preocupa com seu parente. Todas essas pessoas, portanto, terão um motivo para se informarem ou se verão obrigadas a isso. Um psiquiatra aprende para passar na faculdade, tenha ele grande interesse pelo assunto ou não. Um bipolar geralmente começa a aprender sobre o TAB depois de receber o diagnóstico. Um parente de bipolar geralmente se informa para lidar melhor com seu parente.

Todos eles são movidos por algum interesse, necessidade ou obrigação. Raramente algum deles já conhecia o TAB a fundo. Mas eles agem errado porque não começaram a se informar antes? De modo algum. Se cada pessoa deste mundo começasse a se informar sobre cada assunto existente, ninguém no fim das contas saberia nada, porque a quantidade de assuntos deste mundo é infinita... Temos que selecionar o que vamos aprender e o que não vamos. Um médico, por exemplo, deve decidir se deseja se especializar em Psiquiatria ou Cardiologia.

Mas por que um leigo, que não se vê obrigado a estudar o assunto, que não é bipolar nem tem parentes bipolares iria buscar informação a respeito? O que o levaria a isso? Vejamos.

A maioria das pessoas não busca informação, mas a recebe através dos meios de comunicação. Muitas pessoas sabem algo sobe TAB porque assistem a Malhação, acompanhando o que acontece com a Raquel. Muitas pessoas também aprenderam (posso dizer aprenderam?) o que é TAB ouvindo a marchinha Amigo Bipolar no Fantástico... E aí é que está. Não são documentários, não são programas para ensinar. Malhação, por exemplo, é uma telenovela; não é um documentário sobre o TAB! Tanto Malhação como a marchinha visam ao entretenimento, deixando a informação em segundo plano. No caso da marchinha, em plano algum!

O veículo mais adequado para ensinar, se estamos falando da TV, é o documentário. Mas poucas pessoas assistem a documentários. Porque é quase o mesmo que estudar, e poucas pessoas estudam por conta própria um assunto sem que haja um motivo especial ou uma obrigação. Daí que voltamos à estaca zero. Por que alguém, não movido por obrigação ou necessidade, aprenderia sobre o TAB? Vamos lá...

Suponhamos que o governo investisse em campanhas informativas sobre o TAB, da mesma maneira que faz com o cigarro ou contra o racismo. Seria ótmo? Seria excelente! Mas, comparativamente, qual seria o resultado? Praticamente o mesmo. Porque campanhas informativas não mudam o comportamento de quase ninguém. Pergunte a um fumante se ele sabe se o fumo causa câncer. A resposta será sim, ele sabe. Pergunte a uma pessoa racista se ela percebe que está falando mal de um negro. A resposta será sim, ela não só percebe, como também tem essa intenção!

A informação pura e simples só muda o comportamento de parte das pessoas. Porque a maioria das pessoas não é movida pela lógica ou pela razão como possa parecer. Veja:

Uma grande empresa de cigarros, para influenciar o maior número possível de pessoas a comprar cigarros de sua marca, não faz campanhas informativas, porque seria jogar dinheiro fora. O que ela faz é recorrer a Psicologia para criar comerciais que realmente influenciem a população. Suas campanhas não são informativas como as do governo. E não preciso dizer quem leva vantagem na hora de influenciar o povo sobre o fumo.

No caso do TAB, é a mesma coisa.

Informar as pessoas sobre o TAB é excelente. Mas, no que diz respeito ao preconceito das massas, só o emprego da Psicologia através de um filme, um livro, etc. seria capaz de reduzir o estigma.

Sendo assim, para reduzir o estigma, devemos falar especialmente aos não-bipolares. Afinal de contas, o preconceito costuma vir deles. Mas, se eles de modo geral não estão dispostos a se informar, o que fazer? Como eu disse acima, um filme, uma história que os comova antes de tudo, é o melhor caminho.

Desse modo, numa história, não devemos mostrar o bipolar como um coitado para despertar a compaixão de quem tem pena, nem o menosprezo de quem se sente superior. Com isso, estaríamos fazendo o bipolar ficar abaixo das demais pessoas, tanto daquelas que o olhariam com bons olhos (isto é, com pena) como daquelas que o olhariam com maus olhos (ou seja, com menosprezo).

Ainda assim, o caminho mais trilhado para chamar a atenção parece ser o mais fácil, isto é, mostrar o bipolar como uma aberração, um ET ou algo realmente grotesco, exagerando o que o TAB possa ter de pior ou só mostrando esses exageros, nada mais. Nesse caso, o bipolar não é visto com bons olhos, pelo contrário, o estigma aumenta e, do ponto de vista literário, criamos mais um drácula, mais um godzilla, mais um bicho-papão. Enfim, além de não reduzir o estigma, uma história assim narrada ainda traria mais desinformação sobre o TAB.

Mas por que é tão difícil não recorrer a apelações para falar do TAB? Na verdade, isso não acontece apenas quando o tema da história é o TAB. Partir do cotidiano, da vida real, banal, e ainda assim criar uma história minimamente interessante, com pretensões ao belo, é o desafio de qualquer escritor realista. Não recorrer a apelações, obtendo uma história minimamente interessante, é como falar baixo e, ainda assim, ser ouvido. Recorrer a apelações é como gritar para chamar a atenção.

Mas veja: Quando um mendigo, um bêbado começa a gritar na rua, muitas pessoas param, prestam atenção por um segundo ou outro... mas logo continuam a andar. E elas ainda vão embora com má impressão, mesmo que tenham achado graça...


Moral da históra? É preciso falar do TAB aos não-bipolares, como fez Paulo, que levou o Cristianismo ao gentios. É preciso ir ao encontro dos preconceituosos em vez de evitá-los, como faz o bom médico, que não procura pelos sãos, mas pelos doentes. E é preciso falar baixo...


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Um comentário:

Cynthia disse...

Bastante esclarecedora sua matéria, acho que só interessa as pessoas aquilo que elas estão passando, o outro não importa, somos sempre egoístas. Abraço Cy