sexta-feira, 1 de abril de 2011

A mulher é uma indisposição natural

(Depois de ter lido o post da Ana, que também refletiu sobre a frase a mulher é uma indisposição natural, da Lívia Garcia.)

Se a mulher é uma indisposição natural, quer dizer que ela só pode ser mulher em função de algo que contraria sua volição. Em poucas palavras, a mulher seria uma eterna reação a algo (nunca uma ação, um primeiro passo, uma origem). Para que a mulher pratique a ação de indispor-se, é necessáro que haja o objeto ou a coisa que a leva à indisposição. (E não, não digamos uma frase à maneira dos poetas românticos, falando que indispor-se, nesse caso, é verbo intransitivo; seria uma frase bastante bonita, bastante poética, é verdade, mas também seria fugir da questão por um viés, no mínimo, ingênuo e superficial. Enfrentemos a questão.)

Se indispor-se naturalmente define a mulher, quais são essas coisas diante das quais ela se indispõe naturalmente, como parte de sua condição de mulher? A mulher não poderia definir-se por si só, sem que dependesse de outros elementos? Um homem é um homem, não importa o contexto. Mas e uma mulher? Ela não poderia ser o que é pelo que é, sem que tenhamos de falar em um terceiro elemento?

Além do mais, dizer que a mulher é uma indisposição natural nos lembra a ideia oposta, de que o homem é ação, isto é, de que o homem é uma disposição natural. Se tivermos isso em mente, então a frase acima sobre a mulher torna-se bastante machista. Eu, como homem, não diria que a mulher é uma indisposição natural, mas talvez uma mulher se sinta mais à vontade para fazê-lo...

Não digo, entretanto, que a autora da frase seja machista ou que tenha tido essa intenção conscientemente... (E, para evitarmos celeumas desnecessárias, não direi sequer que ela teve essa intenção inconscientemente. Deus me livre de discussões fúteis com quem quer que seja, especialmente com pessoas mais inteligentes que eu. Estou apenas refletindo como quem não quer nada, sem maiores intenções... Sou apenas um tolo interpretando uma frase. O que mais eu seria? Quem me lê, o faz por diversão ou passatempo; não para instruir-se...)

Mas por que eu dizia que a frase acima soa machista? Por um único motivo. Se a mulher sempre está indisposta, significa que ela nunca se disporá a isto ou aquilo. Em poucas palavras, significa que outra pessoa terá que impor sua vontade a ela. Na prática, significa que o homem deve controlar a mulher ou decidir por ela. Será que uma mulher é realmente assim? Melhor, será que uma mulher pode admitir tal ideia de si mesma? Ao menos inconscientemente, é uma condição que muitas mulheres aceitam, especialmente as que nasceram décadas atrás... Ver-se como filha ou como esposa, até pouco tempo, era o mesmo que ver-se como propriedade do homem.

Mas não fujamos ao tema. Continuemos.

Poderíamos ser ingênuos e dizer que a mulher é fruto de um contexto, de milhares de anos na evolução da Humanidade. Mas isso também se aplicaria ao homem. Se há uma ideia essencial do que é ser homem, significa que essa ideia não depende de um terceiro elemento, simplesmente por ser uma ideia essencial ou fundamental. Sendo assim, por que não haveria essa mesma ideia essencial a respeito da mulher?

Podemos dizer facilmemte que uma mulher não é um homem, mas, nesse caso, estaríamos dizendo o que ela não é. Não seria, portanto, uma resposta, uma afirmação; mas uma negação.

Talvez a melhor resposta para definir o que é uma mulher seja aquela frase de Lacan, que diz que a mulher não existe. Talvez seja por isso que, depois de tanto tempo procurando, ninguém tenha achado uma boa resposta até hoje... Em poucas palavras, concordando com Lacan, poderíamos dizer que a mulher e o homem, em essência, são iguais; e que o que diferencia um do outro não são atributos essenciais, mas secundários. Pois é! A mulher é o homem (frase minha, mais chocante que a de Lacan!).


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Um comentário:

Ana SS disse...

Gosto muito quando os posts do Significantes te inspiram posts também.

Durante toda a leitura que fiz do seu texto, me veio à cabeça. A mulher é não-toda fálica. O homem é fálico. Que me remete ao Totem e Tabu, do Freud. Não falei disso no meu texto porque me pareceu uma questão demasiadamente teórica para postar lá, mas agora não tive como ler o seu escrito sem pensar nisso.

E, ri muito: "Deus me livre de discussões fúteis com quem quer que seja, especialmente com pessoas mais inteligentes que eu. " Minhas palavras, tb.

Abraço!