quarta-feira, 6 de abril de 2011

19 mil leitos psiquiátricos a menos

(Depois de ter lido o post da Ana.)

O que acontece e quase ninguém entende, é que essa questão não tem nada a ver com Psiquiatria. Explico: Quem cuida da administração pública são os políticos. A maior preocupação deles é ganhar votos, para que possam se manter no poder. Político que não ganha voto, não se reelege, morre politicamente. E os políticos também pensam em ganhar votos para seus partidos. São os partidos que lhe concedem cargos de confiança quando não estão eleitos...

Imagine que um médico muito competente tenha se tornado Ministro da Saúde. Ele poderá se preocupar unicamente com Medicina? Obviamente que não. E se ele não se importasse com Política? Logo ele seria substituído por outra pessoa, que rendesse mais retorno em matéria de votos. Com a Educação acontece a mesma coisa...

O objetivo de um político, numa democracia, é ganhar votos. O objetivo de um médico, é atender bem, fazer fama na medida em que é competente. Mas, se misturamos os dois objetivos, um deles prevalecerá, porque são objetivos diferentes. E são os políticos que concedem cargos de confiança a terceiros, sejam estes médicos ou não. O contrário não acontece. Em resumo, a Política vem em primeiro lugar.

Mas é ingenuidade achar que governar bem seria suficiente para ganhar votos. Costuma-se dizer que político não gosta de fazer obras de encanamento, porque os canos ficam debaixo da terra e ninguém vê, isto é, ele não ganha votos com isso. Com a Saúde é a mesma coisa. Criar 19 mil leitos é necessário, mas a população o quer? A maioria das pessoas não se interessa pelo assunto, não quer saber e se incomoda quando tem de falar nele.

Uma pessoa do povão, um tipo bastante popular, provavelmente daria a seguinte resposta se fosse perguntado sobre a necessidade dos 19 mil leitos: Tá me achando com cara de doido? Pra que que eu vou querer esses 19 mil leitos a mais? Eu quero é comida na mesa, dinheiro no bolso e diversão. Não sou maluco! Pois é! Os políticos governam para todos, tanto para você que quer os 19 mil leitos que faltam, como para os que não estão nem aí.

E o orçamento para a criação de mais leitos deve ser discutido antes de ser aprovado. Discutido por políticos, é claro! Cada qual dentro do governo briga por um orçamento maior. Nada, na Política, é de graça. Mas quem está brigando pelos loucos? (Sim, sim; digamos loucos, que é a palavra usada pelo povo. Porque um político que lutasse pelos loucos teria seu nome associado ao dos... loucos! Seria fácil para a oposição fazer piada.)

Culpa dos políticos? De modo algum. Nós que os elegemos. Culpa de todo o povo? Tampouco. Todo o povo não os elege, mas a maioria sim. Culpa da maioria? Tampouco. Numa democracia, a maioria sempre está certa, porque democracia é o governo da maioria... 

Como todos sabem, numa democracia como a nossa um político incompetente pode se manter mais facilmente no governo, porque o poder está muito dividido; é quase impossível pôr a culpa numa só pessoa. A câmara não decide sozinha, porque há o senado. O presidente não legisla, porque não é poder legislativo. E ele não pode vetar o que o congresso aprovou sem que mostre que a lei aprovada é inconstitucional. Além do mais, há os ministros. Enfim, a responsabilidade é de todos eles, mas a culpa não é de ninguém, porque ninguém sozinho decide nada...

Só num governo em que o poder está mais concentrado nas mãos destas ou daquelas pessoas, é possível dizer claramente quem é culpado por isto ou aquilo. Mas governos em que o poder está mais concentrado costumam ser mal vistos pelas pessoas que vivem numa democracia.

Creio que não seja necessário dizer que há bons políticos por aí, ou que toda regra tem as suas exceções. Além do mais, partidos políticos que cheguem ao poder hoje não podem, a curto prazo, resolver problemas que levaram décadas crescendo... Eu falava de modo geral.

Mas veja que curioso. Nada mais antidemocrático que uma consulta médica. Imagine que um paciente vá ao consultório acompanhado de seus parentes e amigos. Isso mesmo! Ele vai em grupo, como se fosse uma excursão ou romaria... O paciente apresenta sintomas que podem ser de pneumonia, tuberculose ou faringite. O médico examina o paciente e avalia os sintomas. Então chega a hora de dar o diagnóstico. Pois bem! Imagine que houvesse uma votação envolvendo todos os presentes. Todos votariam: o paciente, os parentes e os amigos dele, inclusive o médico. A maioria vence e decide qual é o diagnóstico. O nome disso? Democracia: a maioria decide. Mas agora imagine que a consulta tenha acontecido como de costume, isto é, o médico sozinho decidiu. Qual o nome disso? Aristocracia, que significa governo dos mais aptos... Pois é! Ao menos as consultas médicas adotam outro sistema de governo, felizmente uma aristocracia ao estilo de Platão...

Antes de terminar (você já pode parar de ler, já terminei meu raciocínio), antes de terminar eu gostaria de lembrar o caso de Tomas, na Insustentável Leveza do Ser. Ele perdeu o emprego porque era um mau médico? De modo algum. Quem leu o romance, sabe que sua demissão nada teve a ver com incompetência. Para não dizer que ele perdeu o emprego por Política ou coisa parecida, digamos que foi por certo gosto dele por Teatro...


Moral da história: tudo é política. 


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2 comentários:

João Ludugero disse...

Passa lá no meu blog. Se gostar, me siga.
Adorei estar aqui. Já estou dentro, seguindo.
Felicidades, muitas alegrias. Hoje e sempre!
Hper abraço,
João.

Alicia disse...

Política, sim.

Burrice achar que não quer se envolver com isso.

Todos pagamos.

E nem sempre é com dinheiro.