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sábado, 3 de setembro de 2011

Transtornos mentais e diagnóstico

Para ler esta matéria em seu site de origem, clique aqui. Ela foi traduzida do site argentino Noticiero Diario.

 
 
Rechaço social aos transtornos mentais dificulta o diagnóstico


Estes são alguns dos resultados de uma pesquisa realizada pela Fundação AstraZeneca durante sua última "Campanha de Conscientização Social Sobre a Enfermidade Mental", celebrada em Madri e Sevilha.

 
Do estudo participaram cerca de 5.500 entrevistados. Deles, 69 por cento afirma que são enfermidades muito desconhecidas, tanto pelos pacientes como por seus familiares, enquanto que um de cada quatro (26 por cento) aponta que o problema do diagnóstico se deve ao fato de que os "sintomas destas enfermidades são pouco claros".

 
Outro dado relevante desta pesquisa foi o "grande desconhecimento" por parte da maioria das pessoas sobre os sintomas da esquizofrenia e do transtorno bipolar. Deste modo, 52,2 por cento dos entrevistados não conhecia nenhum sintoma do transtorno bipolar e 45,5 por cento não conhecia nenhum sintoma da esquizofrenia.

 
Por outro lado, entre as pessoas que já conheciam sintomas de ambas as enfermidades, destacaram a ciclotimia na forma de altos e baixos; as mudanças de humor como determinantes no transtorno bipolar; e a presença de alucinações, a agressividade e a violência no caso da esquizofrenia.


Igualmente, nove de cada dez entrevistados pensam que o transtorno bipolar e a esquizofrenia interferem na vida cotidiana do paciente, sobretudo nos relacionamentos amorosos e vida conjugal, no trabalho e no tempo de lazer. Entretanto, "percebe-se que certas tarefas podem ser feitas com certa normalidade. É preciso deixar claro que essa limitação não é impossibilidade", explicou Miguel Ruiz, professor de Psicologia da Universidade Autônoma de Madri e diretor do estudo.



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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Esquizofrenia e Transtorno Bipolar

Tentemos entender a diferença entre esquizofrenia e TAB.

O bipolar vai a um extremo e depois a outro (isto é, vai da depressão à euforia) e, nessas idas e voltas, ele acaba passando pelo "centro".

O centro é aquele momento em que não há depressão nem euforia, em que o humor está estabilizado. O centro é uma linha que fica entre a depressão e a euforia, como a linha do Equador fica entre o Pólo Sul e o Pólo Norte.

O esquizofrênico vai e volta, mas já não haverá o "centro"... Algo, que não é só o humor, foi alterado ou ficou comprometido.

No caso de bipolares, para pôr fim a uma crise, estabiliza-se o humor. E o bipolar volta ao centro. No caso de esquizofrênicos, não é bem assim...

Embora a esquizofrenia e o transtorno bipolar possam ser confundidos num primeiro momento ou à primeira vista, a tentativa de tratar uma crise mostraria melhor a diferença entre esquizofrenia e TAB. Vejamos este exemplo:

Se o humor de um paciente (supostamente um bipolar) é estabilizado e o paciente não entra em remissão, provavelmente temos aí um esquizofrênico e, não, um bipolar... Daí, para pôr fim à crise, o paciente é tratado como esquizofrênico. A medicação, agora, é diferente e provavelmente teremos um resultado satisfatório... (Sim, eu sei; está parecendo um episódio de House... Mas não é assim na vida real? Nem sempre há o diagnóstico correto, o tratamento correto desde o início. Às vezes, porque nunca passou por uma avaliação médica, o paciente não tem sequer um diagnóstico quando começa a primeira crise!)

Sendo assim, a esquizofrenia afeta o paciente, antes de tudo, em algo que se encontra para lá do humor ou do afeto enquanto o TAB altera, essencialmente, o humor.


Transtorno Esquizoafetivo

O transtorno esquizoafetivo pode ser visto como um meio-termo entre esquizofrenia e TAB. Seja como for, não é esquizofrenia nem TAB.


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sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Ela tem dupla personalidade, é bipolar"

Quem assistiu a Morde e Assopra no dia 16 de maio e só foi ao banheiro na hora dos comerciais, provavelmente ouviu o médico Guilherme dizer que Ela tem dupla personalidade, é bipolar.

Esse diagnóstico, obviamente, é tão verdadeiro quanto o diploma de médico do personagem Guilherme, que cursou Medicina nas praias do Rio enquanto as meninas passavam mais adiante, de fio dental... (Aliás, uma faculdade que o Dicró também deve ter feito...)

Seja como for, tentemos entender a diferença entre uma coisa e outra. Não é preciso ser médico para entender ou ter uma noção... Basta um pouco de boa-vontade e um minuto do nosso tempo.


Dupla Personalidade

Dupla personalidade é um nome popular para transtorno dissociativo de identidade, antes também chamado transtorno de múltiplas personalidades.

Quem puder apanhar um exemplar do romance O Médico e o Monstro, publicado pela primeira vez no século XIX, na Inglaterra, já terá diante de si um bom exemplo. É folhear o livro e conhecer a história.

O médico é um homem bom e respeitado. O monstro é um assassino, uma verdadeira monstruosidade como sugere o título do romance.

Um deles salva vidas; o outro, mata.

Quando um some, o outro reaparece; e ninguém sabe que o médico e o monstro são a mesma pessoa.

O médico chega a incumbir o seu advogado de uma curiosa tarefa: o médico quer deixar um testamento beneficiando o monstro, que é ele mesmo. O médico tem medo de nunca mais voltar a governar o corpo que ele agora divide com o monstro, este outro inquilino de sua alma... ah! oh!

Mas veja: dupla personalidade não é transtorno bipolar, da mesma forma que transtorno bipolar não é esquizofrenia.

No TAB, há uma linha. Acima dela está a euforia; abaixo, a depressão. O bipolar cruza essa linha, ora subindo até a euforia, ora descendo até a depressão. O bipolar, mais cedo ou mais tarde, torna a passar por essa linha.

Na esquizofrenia, essa linha se quebra... O esquizofrênico não volta a passar por ela. Algo mais profundo que o humor ou o afeto foi alterado.

Na dupla personalidade, há uma espécie de neurose. A pessoa, para evitar um conflito e adaptar-se a determinada situação, nega certas verdades ou deixa de levá-las em conta ao fazer associações de ideias; e isso varia segundo a situação, de modo que a pessoa faça o quer, sem se repreender, como se tivesse duas caras e só esperasse uma oportunidade.

Seja como for, os casos de dupla personalidade são raros e nem todos os profissionais acreditam em tal doença. Mesmo as tentativas de explicar a dupla personalidade podem variar.


Dupla personalidade e Transtorno Bipolar

Se na dupla personalidade a pessoa age de acordo com as circunstâncias, no TAB a pessoa reage às circunstâncias de acordo com o humor do momento, e o humor do momento pode ser depressivo, eufórico ou misto.

Num caso de dupla personalidade, portanto, é que podemos dizer que a pessoa tem duas caras, porque ela age segundo as circunstâncias. Na dupla personalidade, a pessoa está tentando se adaptar a situações diversas, tal como na neurose a pessoa tenta se adaptar a determinada situação.

No caso do TAB, é o humor do momento que determina se a pessoa reagirá de modo depressivo ou eufórico às circunstâncias. O bipolar em crise nem sempre se adapta às circunstâncias, pelo contrário, ele geralmente não se adapta, daí sua dificuldade para levar uma vida normal quando o humor não está estabilizado.

Durante uma crise de mania, as circunstâncias dizem ao bipolar: Não faça isso, é impossível. Tenha bom-senso. Mas o humor do bipolar diz: Vá em frente, você consegue facilmente! Isso é moleza pra você! O bipolar, obviamente, só ouve o que seu humor lhe diz; só procura agir segundo o seu humor...

Geralmente o humor hipomaníaco é que permite ao bipolar adaptar-se a uma situação mais facilmente, desde que essa situação exija esforço continuado, grande ânimo, otimismo, etc.


"Não sou uma só"

Alongando a questão, poderíamos dizer que o bipolar não é um só, mas três em um? Vejamos...

O TAB é um TRANStorno, ou seja, o TAB faz com que o bipolar se afaste (se desloque) de um centro, por assim dizer, indo ora em direção de um extremo (a depressão), ora em direção de outro extremo (a euforia). Mas o bipolar não rompe com esse centro...

Obviamente, o bipolar não reage da mesma forma durante as crises de depressão e de mania. Porque suas reações variam segundo as crises que ele experimenta. Afinal, é um transtorno do humor. Ou transtorno afetivo. (Entendamos humor ou afeto como a maneira que temos de reagir ao mundo ou às circunstâncias. Humor e afeto, nesse caso, podem ser entendidos como sinônimos. Está vendo por que, cargas d'água, se pode dizer TAB ou TBH indistintamente?)

O bipolar, portanto, não são duas ou várias pessoas em uma; mas uma única pessoa, que reage de formas diferentes a circunstâncias exatamente iguais, ora de um modo, ora de outro, conforme o humor.

Só com isso em mente, é que poderíamos dizer que o bipolar são dois (um na fase depressiva e outro na fase eufórica) ou três (agora levando em conta os períodos de vida normal que ele tem).

Guardadas as devidas proporções, pergunto: Poderíamos dizer que uma pessoa não-bipolar são três em uma, se num dia ela ficou muito feliz por algum motivo e, no outro, muito triste?


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terça-feira, 12 de abril de 2011

Jorge - Conto

Jorge toma o táxi.

— Você viu — vai perguntando o taxista — o que aconteceu em Realengo?

Todo o mundo viu, mais de uma vez, porque a notícia é veiculada na TV dia e noite.

 Eu vi, foi horrível.
 Aquele atirador era louco!
 Na verdade, era esquizofrênico...
 Que nada! Era louco mesmo!

E a viagem prosseguiu. Jorge desceu na escola onde era professor. Deu aula como já fazia há 25 anos. Era seu último dia antes de se aposentar.

 Você viu, Jorge, o que aconteceu em Realengo?

Todo o mundo tinha visto.

 Você viu o que aquele psicopata fez?
 Vi tudo pela TV. Várias vezes. Mas sabe... aquilo poderia ter sido evitado.
 Como? O homem tinha um espírito mau no corpo, aquilo não se evita!
 Os jornais dizem que ele era esquizofrênico e estava sem tratamento há sete anos. Você sabe, é uma doença tratável...
 Que nada!
— Nenhuma doença mental deveria ser caso de polícia. Sejamos sensatos.
— Quê?! Esquizofrenia é desculpa. O remédio dele era uma bala na cabeça!

E em seguida soou o sinal. Jorge foi para a sua sala, deu aula. Os alunos não paravam de falar em Realengo. A aula não andava, não ia em frente. Jorge acabou falando com os alunos sobre o massacre.

 Vocês sabem o que é esquizofrenia?

Ninguém sabia. Jorge explicou, mas era como se não tivesse explicado, porque ninguém entendeu.

 Meu pai  um aluno ia dizendo  falou que não existe isso de louco não. Ainda bem que o policial matou o bandido.

No fim do expediente, na sala dos professores, houve bolo, refrigerante e cigarros. Jorge foi felicitado pela aposentadoria. Era um bom professor e dava aulas ali há mais de 16 anos.

 Obrigado  dizia Jorge, agradecendo os cumprimentos.

Na volta para casa, tomou novamente o táxi. O taxista era outro, mas o assunto era o mesmo.

 Você viu o que houve? Ele era louco. Tinha que ter sido morto há mais tempo. Um monstro, um bandido! E circulava por aí. O diabo que o leve...

Jorge tentou explicar que as doenças mentais devem ser tratadas, que tudo poderia ter sido evitado, mas suas explicações eram inúteis. Parecia que alguém já tinha explicado tudo a todos. Jorge, com sua experiência de 25 anos como professor, não conseguia explicar nada.

Jorge subiu as escadas, chegou a seu apartamento, ligou a TV. As notícias sobre Realengo se repetiam, sem novidades. As imagens que ele viu à noite eram as mesmas que ele havia visto de tarde, e as da tarde ele já tinha visto de manhã... As explicações também se repetiam, sem que nada ou quase nada fosse acrescentado. A palavra psicopata foi usada até a exaustão. O atirador era psicótico, não psicopata...

Jorge recebeu visitas. Não tinha milhões de amigos, mas tinha uns poucos e bons.

 Ah, Jorge! Se todos fossem gente boa como você! Aquele atirador era um demônio!

Jorge ia explicar pela milésima vez que o atirador era esquizofrênico e poderia ter sido tratado. A tragédia poderia ter sido evitada. Mas ele estava cansado, já havia tentado explicar isso milhões de vezes o dia todo, sem sucesso. Deixou pra lá e se contentou em sorrir...

Jorge se levantou, foi ao banheiro, tomou o seu remédio para esquizofrenia e voltou.

 Um monstro  dizia Jorge  um psicopata, um demônio.

Jorge já não tinha que explicar nada, agora concordava com todos. 


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19 mil leitos psiquiátricos a menos
Para não dizerem que não falei de Realengo
Comentando o post da Maga, do Bipolar Brasil, sobre a tragédia de Realengo