Quem assistiu a Morde e Assopra no dia 16 de maio e só foi ao banheiro na hora dos comerciais, provavelmente ouviu o médico Guilherme dizer que Ela tem dupla personalidade, é bipolar.
Esse diagnóstico, obviamente, é tão verdadeiro quanto o diploma de médico do personagem Guilherme, que cursou Medicina nas praias do Rio enquanto as meninas passavam mais adiante, de fio dental... (Aliás, uma faculdade que o Dicró também deve ter feito...)
Seja como for, tentemos entender a diferença entre uma coisa e outra. Não é preciso ser médico para entender ou ter uma noção... Basta um pouco de boa-vontade e um minuto do nosso tempo.
Dupla Personalidade
Dupla personalidade é um nome popular para transtorno dissociativo de identidade, antes também chamado transtorno de múltiplas personalidades.
Quem puder apanhar um exemplar do romance O Médico e o Monstro, publicado pela primeira vez no século XIX, na Inglaterra, já terá diante de si um bom exemplo. É folhear o livro e conhecer a história.
O médico é um homem bom e respeitado. O monstro é um assassino, uma verdadeira monstruosidade como sugere o título do romance.
Um deles salva vidas; o outro, mata.
Quando um some, o outro reaparece; e ninguém sabe que o médico e o monstro são a mesma pessoa.
O médico chega a incumbir o seu advogado de uma curiosa tarefa: o médico quer deixar um testamento beneficiando o monstro, que é ele mesmo. O médico tem medo de nunca mais voltar a governar o corpo que ele agora divide com o monstro, este outro inquilino de sua alma... ah! oh!
Mas veja: dupla personalidade não é transtorno bipolar, da mesma forma que transtorno bipolar não é esquizofrenia.
No TAB, há uma linha. Acima dela está a euforia; abaixo, a depressão. O bipolar cruza essa linha, ora subindo até a euforia, ora descendo até a depressão. O bipolar, mais cedo ou mais tarde, torna a passar por essa linha.
Na esquizofrenia, essa linha se quebra... O esquizofrênico não volta a passar por ela. Algo mais profundo que o humor ou o afeto foi alterado.
Na dupla personalidade, há uma espécie de neurose. A pessoa, para evitar um conflito e adaptar-se a determinada situação, nega certas verdades ou deixa de levá-las em conta ao fazer associações de ideias; e isso varia segundo a situação, de modo que a pessoa faça o quer, sem se repreender, como se tivesse duas caras e só esperasse uma oportunidade.
Seja como for, os casos de dupla personalidade são raros e nem todos os profissionais acreditam em tal doença. Mesmo as tentativas de explicar a dupla personalidade podem variar.
Dupla personalidade e Transtorno Bipolar
Se na dupla personalidade a pessoa age de acordo com as circunstâncias, no TAB a pessoa reage às circunstâncias de acordo com o humor do momento, e o humor do momento pode ser depressivo, eufórico ou misto.
Num caso de dupla personalidade, portanto, é que podemos dizer que a pessoa tem duas caras, porque ela age segundo as circunstâncias. Na dupla personalidade, a pessoa está tentando se adaptar a situações diversas, tal como na neurose a pessoa tenta se adaptar a determinada situação.
No caso do TAB, é o humor do momento que determina se a pessoa reagirá de modo depressivo ou eufórico às circunstâncias. O bipolar em crise nem sempre se adapta às circunstâncias, pelo contrário, ele geralmente não se adapta, daí sua dificuldade para levar uma vida normal quando o humor não está estabilizado.
Durante uma crise de mania, as circunstâncias dizem ao bipolar: Não faça isso, é impossível. Tenha bom-senso. Mas o humor do bipolar diz: Vá em frente, você consegue facilmente! Isso é moleza pra você! O bipolar, obviamente, só ouve o que seu humor lhe diz; só procura agir segundo o seu humor...
Geralmente o humor hipomaníaco é que permite ao bipolar adaptar-se a uma situação mais facilmente, desde que essa situação exija esforço continuado, grande ânimo, otimismo, etc.
"Não sou uma só"
Alongando a questão, poderíamos dizer que o bipolar não é um só, mas três em um? Vejamos...
O TAB é um TRANStorno, ou seja, o TAB faz com que o bipolar se afaste (se desloque) de um centro, por assim dizer, indo ora em direção de um extremo (a depressão), ora em direção de outro extremo (a euforia). Mas o bipolar não rompe com esse centro...
Obviamente, o bipolar não reage da mesma forma durante as crises de depressão e de mania. Porque suas reações variam segundo as crises que ele experimenta. Afinal, é um transtorno do humor. Ou transtorno afetivo. (Entendamos humor ou afeto como a maneira que temos de reagir ao mundo ou às circunstâncias. Humor e afeto, nesse caso, podem ser entendidos como sinônimos. Está vendo por que, cargas d'água, se pode dizer TAB ou TBH indistintamente?)
O bipolar, portanto, não são duas ou várias pessoas em uma; mas uma única pessoa, que reage de formas diferentes a circunstâncias exatamente iguais, ora de um modo, ora de outro, conforme o humor.
Só com isso em mente, é que poderíamos dizer que o bipolar são dois (um na fase depressiva e outro na fase eufórica) ou três (agora levando em conta os períodos de vida normal que ele tem).
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