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terça-feira, 12 de abril de 2011

Jorge - Conto

Jorge toma o táxi.

— Você viu — vai perguntando o taxista — o que aconteceu em Realengo?

Todo o mundo viu, mais de uma vez, porque a notícia é veiculada na TV dia e noite.

 Eu vi, foi horrível.
 Aquele atirador era louco!
 Na verdade, era esquizofrênico...
 Que nada! Era louco mesmo!

E a viagem prosseguiu. Jorge desceu na escola onde era professor. Deu aula como já fazia há 25 anos. Era seu último dia antes de se aposentar.

 Você viu, Jorge, o que aconteceu em Realengo?

Todo o mundo tinha visto.

 Você viu o que aquele psicopata fez?
 Vi tudo pela TV. Várias vezes. Mas sabe... aquilo poderia ter sido evitado.
 Como? O homem tinha um espírito mau no corpo, aquilo não se evita!
 Os jornais dizem que ele era esquizofrênico e estava sem tratamento há sete anos. Você sabe, é uma doença tratável...
 Que nada!
— Nenhuma doença mental deveria ser caso de polícia. Sejamos sensatos.
— Quê?! Esquizofrenia é desculpa. O remédio dele era uma bala na cabeça!

E em seguida soou o sinal. Jorge foi para a sua sala, deu aula. Os alunos não paravam de falar em Realengo. A aula não andava, não ia em frente. Jorge acabou falando com os alunos sobre o massacre.

 Vocês sabem o que é esquizofrenia?

Ninguém sabia. Jorge explicou, mas era como se não tivesse explicado, porque ninguém entendeu.

 Meu pai  um aluno ia dizendo  falou que não existe isso de louco não. Ainda bem que o policial matou o bandido.

No fim do expediente, na sala dos professores, houve bolo, refrigerante e cigarros. Jorge foi felicitado pela aposentadoria. Era um bom professor e dava aulas ali há mais de 16 anos.

 Obrigado  dizia Jorge, agradecendo os cumprimentos.

Na volta para casa, tomou novamente o táxi. O taxista era outro, mas o assunto era o mesmo.

 Você viu o que houve? Ele era louco. Tinha que ter sido morto há mais tempo. Um monstro, um bandido! E circulava por aí. O diabo que o leve...

Jorge tentou explicar que as doenças mentais devem ser tratadas, que tudo poderia ter sido evitado, mas suas explicações eram inúteis. Parecia que alguém já tinha explicado tudo a todos. Jorge, com sua experiência de 25 anos como professor, não conseguia explicar nada.

Jorge subiu as escadas, chegou a seu apartamento, ligou a TV. As notícias sobre Realengo se repetiam, sem novidades. As imagens que ele viu à noite eram as mesmas que ele havia visto de tarde, e as da tarde ele já tinha visto de manhã... As explicações também se repetiam, sem que nada ou quase nada fosse acrescentado. A palavra psicopata foi usada até a exaustão. O atirador era psicótico, não psicopata...

Jorge recebeu visitas. Não tinha milhões de amigos, mas tinha uns poucos e bons.

 Ah, Jorge! Se todos fossem gente boa como você! Aquele atirador era um demônio!

Jorge ia explicar pela milésima vez que o atirador era esquizofrênico e poderia ter sido tratado. A tragédia poderia ter sido evitada. Mas ele estava cansado, já havia tentado explicar isso milhões de vezes o dia todo, sem sucesso. Deixou pra lá e se contentou em sorrir...

Jorge se levantou, foi ao banheiro, tomou o seu remédio para esquizofrenia e voltou.

 Um monstro  dizia Jorge  um psicopata, um demônio.

Jorge já não tinha que explicar nada, agora concordava com todos. 


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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Comentando o post da Maga, do Bipolar Brasil, sobre a tragédia de Realengo

Olá, Maga! Concordo com você em gênero, número e grau. É muito triste que tudo aconteça da maneira como você explicou em seu post...

O que acontece é que as pessoas leigas em geral tendem a aceitar explicações mais simples, ou pior, tendem a aceitar simplificações que não explicam nada. Por mais que psiquiatras competentes consigam explicar o que houve, as pessoas em geral continuam dizendo que Wellington fez o que fez porque era louco, que nada poderia ser feito, etc.

Eu discordo. A tragédia de Realengo começou quando Wellington abandonou o tratamento psicológico que fazia... Mas parece que ninguém entende isso, isto é, ninguém entende que um bom modo de diminuir futuros casos como esse é investir em saúde mental... Se há uma campanha para que as pessoas não abandonem o tratamento da tuberculose, por que não há campanha parecida para que as pessoas não abandonem tratamentos psicológicos? A saúde mental merece menos atenção que a saúde física? Por que os familiares de Wellington agora têm medo da reação do povo, mas não tiveram medo do que poderia acontecer quando Wellington abandonou o tratamento?

O que aconteceu em 7 de abril é consequência de anos de negligência, porque foram 7 anos em que Wellington ficou sem tratamento... A irmã dele dizia que ele era "estranho", mas por que, eu pergunto, os familiares não fizeram mais por ele do que dizer que ele era "estranho"?

Não seria surpresa se Wellington tivesse se matado (sozinho, sem envolver outras pessoas) devido à esquizofrenia, porque estava sem tratamento há 7 anos. Mas por que ninguém se importou com essa possibilidade?

Se ele tivesse tuberculose, provavelmente a família dele não o teria deixado abandonar o tratamento, simplesmente porque teriam medo de que ele morresse. Mas ora! Não foi exatamente isso o que aconteceu, justamente porque ele abandonou o tratamento? para não falar na morte das 12 crianças? Talvez eles próprios, os familiares de Wellington, não entendessem que ele era "estranho" devido a uma doença... uma doença perfeitamente tratável, o que equivale a dizer uma tragédia de Realengo perfeitamente evitável... Há milhões de esquizofrênicos em todo o Brasil, mas até hoje só houve um Wellington...

Mas ninguém quer entender o que aconteceu ou adotar certas medidas para evitar novas tragédias. É muito mais simples dizer que ele era louco e cruzar os braços. Em outros países, entretanto, eles adotaram certas medidas para diminuir o número de tais tragédias, já que evitar 100% delas é impossível...

Sobre os meios de comunicação e as explicações dadas por psiquiatras, é preciso lembrar que:

1) Os psiquiatras têm um compromisso com a ciência, com a Psiquiatria, com a verdade científica; e

2) a TV tem um compromisso com os telespectadores, com o público em geral, público este que é leigo e geralmente não assimila, não entende ou não aceita as explicações de um psiquiatra. É para esse público que a TV fala, motivo pelo qual a verdade da TV é diferente daquela verdade científica dos psiquiatras, simplesmente porque jornalistas e psiquiatras são profissionais diferentes, se dirigem a públicos diferentes, etc.

A verdade da TV tem que estar associada ao IBOPE, ao que público leigo aceita ou rejeita. Do contrário, o canal de TV não sobrevive. Enfim, os psiquiatras falam a outros psiquiatras, a um círculo menor; mas a TV fala a um grande número de pessoas, a um círculo maior e mais leigo... Um psiquiatra, quando fala a outro que Wellington era esquizofrênico, não tem que explicar o que é esquizofrenia... Um jornalista, quando fala a milhões de telespectadores, não pode explicar sem convencer, ou a matéria não terá aceitação...

Os psiquiatras e os jornalistas têm objetivos diferentes, falam a públicos diferentes; e é curioso quando eles são colocados lado a lado num programa de TV... Como você mesma disse, no programa da Globo News os dois especialistas queriam dizer uma coisa, mas a jornalista queria ou esperava que eles dissessem outra... Não vi o programa, mas confio em seu post... Acredito que você seja uma boa observadora!

A explicação que mais parece agradar às pessoas em geral é a de que Wellington era louco (uma simplificação). E a explicação que mais parece agradar às autoridades é a de que nada podia ser feito, isto é, as autoridades não têm que fazer nada para evitar futuros casos, fica tudo como está... Mas essas duas explicações simplificadas não sairão da boca de um bom psiquiatra, isto é, a verdade complexa, a única que explica o que houve, ficará restrita a um pequeno círculo de especialistas...

Graças a Deus a imprensa também é capaz de passar excelentes informações; e eu gosto de ver esses pequenos deslizes como exceções ou casos à parte, especialmente quando algo inusitado acontece e tudo é dito de improviso... A tragédia de Realengo foi a maior surpresa da imprensa nacional nos últimos tempos, e as notícias sobre o caso foram também um grande improviso, sem matérias anteriores que servissem de base para essa... Os casos anteriores que aconteceram no Brasil nem de longe se comparam a esse...

Talvez alguém diga que todas as notícias são inusitadas e que todas as matérias jornalísticas são escritas de improviso. Explico: Notícias de assassinatos, roubos, etc. são corriqueiras; já há, mais ou menos esboçado, um formato para tais matérias. Mas o caso de Realengo foi bem diferente...

Ah, sim! Uma última coisa que quase ninguém parece entender. Ele não era psicopata, mas psicótico, o que já é outra coisa bem diferente. Mas quem quer saber? Wellington era louco e isso explica tudo... Continuemos com nossas vidas como sempre o fizemos... Afinal, é um assunto tão desagradável; não pensemos mais nele...


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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para não dizerem que não falei de Realengo

Creio que não seja necessário reproduzir aqui notícias sobre a tragédia de Realengo. Todos sabem o que aconteceu naquela escola. Passemos adiante...

O que mais me surpreendeu não foi saber que Wellington tinha problemas psicológicos, mas saber que ele tinha começado um tratamento e o abandonou...

Se ele tivesse pneumonia e tentasse abandonar o tratamento, a família provavelmente o teria impedido. Porque, sem tratamento, ele acabaria morrendo... Mas não foi exatamente isso o que aconteceu? para não falar da morte dos alunos? Parece que as pessoas dão mais importância à saúde física que à saúde mental.

Se Wellington tivesse continuado com o tratamento, a tragédia de Realengo talvez não tivesse acontecido, talvez Wellington estivesse vivo e anônimo como sempre foi, isto é, não estaríamos falando sobre o que houve no Rio; este post (como milhares de outros sobre o assunto) não existiria...

Ampliemos a questão; deixemos Wellington um pouco de lado.

Se uma pessoa está em depressão profunda, ela pode cometer suicídio. Mas, se ela recebe o tratamento adequado, a possibilidade de suicídio vai ficando cada vez mais afastada. Em poucas palavras, o tratamento salva a vida do paciente. A mesma coisa acontece com quem sofre de pneumonia ou tuberculose. Mas por que, eu pergunto, as pessoas dão mais importância às doenças físicas que às doenças mentais, se ambas podem, igualmente, levar à morte?

Nem todas as doenças mentais matam, como nem todas as doenças físicas são capazes de levar ao óbito. Mas por que aquelas são tão negligenciadas? As pessoas tratam até mesmo um resfriado, mas, às vezes, não tratam sequer uma doença mais grave, se esta é mental.

Lamentar a morte das crianças de Realengo é compreensível e natural. Mas não procurar entender o que houve com Wellington é permitir que tudo possa acontecer de novo. O foco, se queremos discutir a solução do problema, não são as crianças, simplesmente porque elas não fizeram nada errado. O foco é Wellington e o tratamento interrompido...

Ele recebeu um diagnóstico e começou um tratamento... Até aí estava tudo bem. A tragédia começou quando ele abandonou o tratamento. Há casos em que não cabe ao paciente decidir e, por isso, outras pessoas decidem por ele. Mas quem quer falar de Wellington? Ninguém. Todos querem prestar solidariedade às famílias das vítimas, o que é correto e necessário; mas pouco prático para evitar novos casos.

O que houve em Realengo deveria nos levar à ação (isto é, entender o problema e tomar medidas para diminuir as possibilidades de uma nova tragédia de Realengo), mas parece que somos mais propensos à inação (isto é, lamentar, aceitar, rezar, esquecer...).


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