(Depois de ter lido o post da Ana, que também refletiu sobre a frase a mulher é uma indisposição natural, da Lívia Garcia.)
Se a mulher é uma indisposição natural, quer dizer que ela só pode ser mulher em função de algo que contraria sua volição. Em poucas palavras, a mulher seria uma eterna reação a algo (nunca uma ação, um primeiro passo, uma origem). Para que a mulher pratique a ação de indispor-se, é necessáro que haja o objeto ou a coisa que a leva à indisposição. (E não, não digamos uma frase à maneira dos poetas românticos, falando que indispor-se, nesse caso, é verbo intransitivo; seria uma frase bastante bonita, bastante poética, é verdade, mas também seria fugir da questão por um viés, no mínimo, ingênuo e superficial. Enfrentemos a questão.)
Se indispor-se naturalmente define a mulher, quais são essas coisas diante das quais ela se indispõe naturalmente, como parte de sua condição de mulher? A mulher não poderia definir-se por si só, sem que dependesse de outros elementos? Um homem é um homem, não importa o contexto. Mas e uma mulher? Ela não poderia ser o que é pelo que é, sem que tenhamos de falar em um terceiro elemento?
Além do mais, dizer que a mulher é uma indisposição natural nos lembra a ideia oposta, de que o homem é ação, isto é, de que o homem é uma disposição natural. Se tivermos isso em mente, então a frase acima sobre a mulher torna-se bastante machista. Eu, como homem, não diria que a mulher é uma indisposição natural, mas talvez uma mulher se sinta mais à vontade para fazê-lo...
Não digo, entretanto, que a autora da frase seja machista ou que tenha tido essa intenção conscientemente... (E, para evitarmos celeumas desnecessárias, não direi sequer que ela teve essa intenção inconscientemente. Deus me livre de discussões fúteis com quem quer que seja, especialmente com pessoas mais inteligentes que eu. Estou apenas refletindo como quem não quer nada, sem maiores intenções... Sou apenas um tolo interpretando uma frase. O que mais eu seria? Quem me lê, o faz por diversão ou passatempo; não para instruir-se...)
Mas por que eu dizia que a frase acima soa machista? Por um único motivo. Se a mulher sempre está indisposta, significa que ela nunca se disporá a isto ou aquilo. Em poucas palavras, significa que outra pessoa terá que impor sua vontade a ela. Na prática, significa que o homem deve controlar a mulher ou decidir por ela. Será que uma mulher é realmente assim? Melhor, será que uma mulher pode admitir tal ideia de si mesma? Ao menos inconscientemente, é uma condição que muitas mulheres aceitam, especialmente as que nasceram décadas atrás... Ver-se como filha ou como esposa, até pouco tempo, era o mesmo que ver-se como propriedade do homem.
Mas não fujamos ao tema. Continuemos.
Poderíamos ser ingênuos e dizer que a mulher é fruto de um contexto, de milhares de anos na evolução da Humanidade. Mas isso também se aplicaria ao homem. Se há uma ideia essencial do que é ser homem, significa que essa ideia não depende de um terceiro elemento, simplesmente por ser uma ideia essencial ou fundamental. Sendo assim, por que não haveria essa mesma ideia essencial a respeito da mulher?
Podemos dizer facilmemte que uma mulher não é um homem, mas, nesse caso, estaríamos dizendo o que ela não é. Não seria, portanto, uma resposta, uma afirmação; mas uma negação.
Talvez a melhor resposta para definir o que é uma mulher seja aquela frase de Lacan, que diz que a mulher não existe. Talvez seja por isso que, depois de tanto tempo procurando, ninguém tenha achado uma boa resposta até hoje... Em poucas palavras, concordando com Lacan, poderíamos dizer que a mulher e o homem, em essência, são iguais; e que o que diferencia um do outro não são atributos essenciais, mas secundários. Pois é! A mulher é o homem (frase minha, mais chocante que a de Lacan!).
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sexta-feira, 1 de abril de 2011
A mulher é uma indisposição natural
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quinta-feira, 24 de março de 2011
Literatura e Análise Psicológica
TEXTO DO BLOG DA ANA
Psiu!
(...) O mundo está cheio de mortos-vivos, de gente que funciona no modo automático sem ouvir as coisas que pensa, sem levar em conta as suas próprias questões. (...)
COMENTÁRIO
Pois é! Isso é tão comum, e às vezes tão grave, que há pessoas que se desesperam quando têm de ficar sozinhas com seus próprios pensamentos ao menos por um minuto. Para elas, é uma ideia insuportável.
Em poucas palavras, elas se atormentam quando têm de ficar na companhia de si mesmas. Então procuram conversar o tempo todo, falar demais, ligar a TV, ouvir música tão alta quanto possível, deixar-se absorver por alguma atividade, etc. Mas, diferentemente de outras pessoas, elas não fazem isso para buscar entretenimento ou prazer; elas o fazem porque, de outro modo, se afligem, se desesperam, não suportam o silêncio... Mas, por silêncio, entenda-se elas mesmas. Elas mesmas e seus próprios pensamentos, nada mais, ninguém mais...
Essas pessoas simplesmente não podem ouvir os próprios pensamentos ou ver-se diante de alguma pergunta que a mente delas fez e não pôde responder, ou que outra pessoa lhes fez e parece complexa demais...
Geralmente, são pessoas que não conseguem refletir ou desenvolver um pensamento de maneira aprofundada. Suas respostas são simples, geralmente se resumem a uma frase. E uma frase ingênua, se empregamos o adjetivo ingênuo como antônimo de crítico. Causas complexas não existem para essas pessoas. Questões complexas, para essas pessoas, não existem. Quem se atém a questões complexas são os loucos. (Os médicos, os psicólogos, os psicanalistas, todos estes, para aquelas pessoas, são loucos, simplesmente porque refletem e pensam muito sobre um assunto. O curioso é que elas recorrem a esses profissionais ao menos de vez em quando...)
Essas pessoas são quase loucas, porque se privam da realidade ou do entendimento das coisas ao menos parcialmente. Os loucos fazem coisa parecida, mas em maior grau. Porém os loucos (pelo menos os loucos) não podem evitar isso...
Essas pessoas não têm os olhos para dentro; elas procuram se esvaziar internamente, imaterialmente. E como todo corpo precisa de uma alma, de um enchimento, essas pessoas buscam esse preenchimento de algum modo, isto é, buscam uma substituição.
Seja como for, não as condeno. Se elas fogem de si mesmas, deve haver um motivo para isso. Porque a verdade é que ninguém foge de algo que lhe parece bom ou agradável. E ninguém esvazia algo para enchê-lo com outra coisa de valor considerado inferior.
Quem tem vida interior, nunca está sozinho. Mas algumas pessoas, quando se voltam para si mesmas, quando fazem silêncio, parecem lançadas diante de algum deserto ou de alguma visão tão horrível, que elas recuam, fogem ou se desesperam.
O bebedor comum, bebe porque tem prazer com a bebida. O bebedor alcoólatra, bebe porque não tem prazer ou sossego sem a bebida. E aí está toda a diferença.
Quem se ocupa com alguma atividade porque sente prazer com isso, é alguém que se diverte. Mas, quem se ocupa porque de outro modo se desesperaria, é alguém que tem um vício ou não tem outra opção... E fugir de si mesmo é a pior das fugas, porque não leva a lugar nenhum.
Poesia, Literatura em Geral
Mas vamos lá! A Ana falava, antes de tudo, de poesia; não fujamos ao tema.
Poetas psicológicos, que se voltavam para si mesmos, para o seu interior, produziram excelentes poemas. Podemos meniconar Petrarca, Camões, Sá de Miranda... E na Literatura, quanto mais profundo é um texto, mais valor ele tem. A Poesia não foge a essa regra, não pode fugir, e ai dela se fugisse! Porque, do contrário, deixaria de ser Literatura também.
Os poemas que exploram conflitos psicológicos estão no topo da evolução da Poesia.
Textos que se baseiam unicamente em ações externas, têm pouco ou nenhum valor em Literatura. É o que geralmente se chama lixo ou subliteratura. E não, não sou eu quem o diz; é a Crítica Literária, coisa que, no Brasil, praticamente não existe. (Eis aí outra afirmação que não é minha.)
Os textos mais valorizados são aqueles em que há profundida psicológica. Mas, para que haja tal qualidade admirada pela Crítica, as cenas externas (isto é, as ações) devem ceder espaço; e o ritmo também se torna mais lento. É o que acontece em Dom Casmurro, em São Bernardo, por exemplo. Dois romances psicológicos nacionais da melhor espécie. São ricos como as pessoas que têm profundidade psicológica, profundeza de alma, por assim dizer.
Psicanálise versus Psicologia
(Leia o comentário da Ana no post Psiu!, e você vai entender.)
Sobre Psicanálise e Psicologia, eu diria que:
O Psicanalista é como o camponês que olha para um pé de oliva, sacudindo essa árvore até que o maior número possível de azeitonas caia sobre a lona estendida abaixo; e então o psicanalista recolhe aquelas azeitonas que lhe servem, descarta as imprestáveis e faz disso a sua ciência.
O Psicólogo é como o camponês que sobe na escada, para ficar junto aos ramos do pé de oliva; olha, escolhe, e a cada olhada vai seguindo este ou aquele ramo que lhe pareça mais proveitoso, e faz disso a sua ciência.
No primero caso, é a árvore que solta seus frutos; e então o Psicanalista os recolhe e seleciona.
No segundo caso, é o Psicólogo que os seleciona e recolhe ao mesmo tempo.
PS- Você vai lembrar disso toda vez que beber azeite ou comer azeitonas.... E, para que não deixemos de falar de Poesia, esses dois exemplos acima não deixam de ter lá a sua poesia. São quase poéticos, modéstia à parte.
Psiu!
(...) O mundo está cheio de mortos-vivos, de gente que funciona no modo automático sem ouvir as coisas que pensa, sem levar em conta as suas próprias questões. (...)
COMENTÁRIO
Pois é! Isso é tão comum, e às vezes tão grave, que há pessoas que se desesperam quando têm de ficar sozinhas com seus próprios pensamentos ao menos por um minuto. Para elas, é uma ideia insuportável.
Em poucas palavras, elas se atormentam quando têm de ficar na companhia de si mesmas. Então procuram conversar o tempo todo, falar demais, ligar a TV, ouvir música tão alta quanto possível, deixar-se absorver por alguma atividade, etc. Mas, diferentemente de outras pessoas, elas não fazem isso para buscar entretenimento ou prazer; elas o fazem porque, de outro modo, se afligem, se desesperam, não suportam o silêncio... Mas, por silêncio, entenda-se elas mesmas. Elas mesmas e seus próprios pensamentos, nada mais, ninguém mais...
Essas pessoas simplesmente não podem ouvir os próprios pensamentos ou ver-se diante de alguma pergunta que a mente delas fez e não pôde responder, ou que outra pessoa lhes fez e parece complexa demais...
Geralmente, são pessoas que não conseguem refletir ou desenvolver um pensamento de maneira aprofundada. Suas respostas são simples, geralmente se resumem a uma frase. E uma frase ingênua, se empregamos o adjetivo ingênuo como antônimo de crítico. Causas complexas não existem para essas pessoas. Questões complexas, para essas pessoas, não existem. Quem se atém a questões complexas são os loucos. (Os médicos, os psicólogos, os psicanalistas, todos estes, para aquelas pessoas, são loucos, simplesmente porque refletem e pensam muito sobre um assunto. O curioso é que elas recorrem a esses profissionais ao menos de vez em quando...)
Essas pessoas são quase loucas, porque se privam da realidade ou do entendimento das coisas ao menos parcialmente. Os loucos fazem coisa parecida, mas em maior grau. Porém os loucos (pelo menos os loucos) não podem evitar isso...
Essas pessoas não têm os olhos para dentro; elas procuram se esvaziar internamente, imaterialmente. E como todo corpo precisa de uma alma, de um enchimento, essas pessoas buscam esse preenchimento de algum modo, isto é, buscam uma substituição.
Seja como for, não as condeno. Se elas fogem de si mesmas, deve haver um motivo para isso. Porque a verdade é que ninguém foge de algo que lhe parece bom ou agradável. E ninguém esvazia algo para enchê-lo com outra coisa de valor considerado inferior.
Quem tem vida interior, nunca está sozinho. Mas algumas pessoas, quando se voltam para si mesmas, quando fazem silêncio, parecem lançadas diante de algum deserto ou de alguma visão tão horrível, que elas recuam, fogem ou se desesperam.
O bebedor comum, bebe porque tem prazer com a bebida. O bebedor alcoólatra, bebe porque não tem prazer ou sossego sem a bebida. E aí está toda a diferença.
Quem se ocupa com alguma atividade porque sente prazer com isso, é alguém que se diverte. Mas, quem se ocupa porque de outro modo se desesperaria, é alguém que tem um vício ou não tem outra opção... E fugir de si mesmo é a pior das fugas, porque não leva a lugar nenhum.
Poesia, Literatura em Geral
Mas vamos lá! A Ana falava, antes de tudo, de poesia; não fujamos ao tema.
Poetas psicológicos, que se voltavam para si mesmos, para o seu interior, produziram excelentes poemas. Podemos meniconar Petrarca, Camões, Sá de Miranda... E na Literatura, quanto mais profundo é um texto, mais valor ele tem. A Poesia não foge a essa regra, não pode fugir, e ai dela se fugisse! Porque, do contrário, deixaria de ser Literatura também.
Os poemas que exploram conflitos psicológicos estão no topo da evolução da Poesia.
Textos que se baseiam unicamente em ações externas, têm pouco ou nenhum valor em Literatura. É o que geralmente se chama lixo ou subliteratura. E não, não sou eu quem o diz; é a Crítica Literária, coisa que, no Brasil, praticamente não existe. (Eis aí outra afirmação que não é minha.)
Os textos mais valorizados são aqueles em que há profundida psicológica. Mas, para que haja tal qualidade admirada pela Crítica, as cenas externas (isto é, as ações) devem ceder espaço; e o ritmo também se torna mais lento. É o que acontece em Dom Casmurro, em São Bernardo, por exemplo. Dois romances psicológicos nacionais da melhor espécie. São ricos como as pessoas que têm profundidade psicológica, profundeza de alma, por assim dizer.
Psicanálise versus Psicologia
(Leia o comentário da Ana no post Psiu!, e você vai entender.)
Sobre Psicanálise e Psicologia, eu diria que:
O Psicanalista é como o camponês que olha para um pé de oliva, sacudindo essa árvore até que o maior número possível de azeitonas caia sobre a lona estendida abaixo; e então o psicanalista recolhe aquelas azeitonas que lhe servem, descarta as imprestáveis e faz disso a sua ciência.
O Psicólogo é como o camponês que sobe na escada, para ficar junto aos ramos do pé de oliva; olha, escolhe, e a cada olhada vai seguindo este ou aquele ramo que lhe pareça mais proveitoso, e faz disso a sua ciência.
No primero caso, é a árvore que solta seus frutos; e então o Psicanalista os recolhe e seleciona.
No segundo caso, é o Psicólogo que os seleciona e recolhe ao mesmo tempo.
PS- Você vai lembrar disso toda vez que beber azeite ou comer azeitonas.... E, para que não deixemos de falar de Poesia, esses dois exemplos acima não deixam de ter lá a sua poesia. São quase poéticos, modéstia à parte.
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quarta-feira, 23 de março de 2011
Transtorno Bipolar
TEXTO DO BLOG DA ANA
Mais da metade dos bipolares não recebe tratamento
Mapeamento mundial sobre transtorno bipolar mostra que menos da metade dos doentes recebe tratamento.
(...)
COMENTÁRIO
O que é mais impressionante? O bipolar que não sabe que tem o transtorno e por isso não se trata, ou o bipolar que é diagnosticado e decide não se tratar? Antes de opinar, devemos tentar entender o que acontece, penetrar a causa secreta das coisas...
Agora que existe esse excelente estudo para pôr em números quantos bipolares diagnosticados não se tratam, as perguntas a serem respondidas são: 1) por que eles não se tratam quando têm acesso ao tratamento? 2) por que abandonam o tratamento quando podem prosseguir com ele? 3) como fazer com que os bipolares diagnosticados continuem com o tratamento mesmo quando decidem abandoná-lo?
A curto prazo, um bipolar pode se sentir muito bem sem o tratamento, porque não está em crise, mas a longo prazo ele sofrerá bastante porque cedo ou tarde virá uma crise... Do contrário, ou ele não era bipolar e tinha recebido um diagnóstico errado (o que não é impossível nem raro), ou ele curou-se espontaneamente (o que é improvável ou é milagre; mas continuemos falando de Medicina; deixemos os temas religiosos para outro post... Pois bem!).
Sem tratamento, é de esperar que as crises comecem a vir com intervalos cada vez menores entre si, que venham mais fortes, etc. Enfim, que o transtorno "evolua" se um bipolar passa a ter clicagem rápida, se um paciente tipo II recebe o diagnóstico de tipo I, etc.
A grande questão é que não se interna um bipolar a não ser que ele esteja numa crise de mania, por exemplo. A internação é uma medida extrema, mas fundamental para salvar a vida do paciente em certos casos. Todavia, entre uma crise e outra, não se pode nem se deve obrigar o bipolar a se tratar. A decisão deve ser dele. Inteiramente dele. Nesse caso, resta informá-lo e, mais eficiente que informar, "emocioná-lo" com histórias comoventes de pacientes que decidiram não se tratar. Ao final de tudo, a decisão ainda será dele.
Das opções possíveis, "emocionar" é psicologicamente mais eficiente que "informar". Exemplos, na campanha eleitoral política, não faltam. Os políticos, nessa área, têm grande experiência!
Por incrível que pareça, a maioria das pessoas (incluindo não-bipolares) age desta maneira: toma uma decisão emotiva e, só depois, pensa de maneira racional a fim de encontrar uma justificativa para as decisões tomadas de maneira emotiva!
Como mania e depressão são modos de escapar da realidade (por dois caminhos bem diversos, é claro!) um bipolar não pode decidir durante suas crises; mas isso não é tudo. Mesmo não estando em crise, há "sintomas leves", resquícios ou restos que ficam "pairando" entre uma crise e outra. Isso costuma acontecer em 50% do tempo. Sendo assim, mesmo fora das crises, o bipolar pode não estar inteiramente apto a decidir, a não ser que esses resquícios não existam. É complicado? Nem tanto. Se nos lembrarmos que o TAB também já foi chamado de insanidade cíclica, então podemos dizer que ao menos em parte do tempo o bipolar pode decidir o que fazer. E, se ele pode decidir nesses "bons momentos", então ele também pode amenizar ou até evitar aqueles "maus momentos", porque estes costumam nascer daqueles, ou são melhor enfrentados quando o bipolar se prepara de antemão.
Sei que há uma parte do trasntorno que é inevitável, imprevisível, implacável... Mas sei também que há uma parte que só depende do bipolar. Do mesmo modo que as formigas se preparam para o inverno quando a época do ano ainda o permite, os bipolares podem se preparar para as crises quando estão naqueles bons momentos de que falei. A crise pode ser tão implacável ou inevitável para o bipolar como a neve é para uma colônia de formigas durante o inverno, mas tudo o que foi feito durante o tempo bom ajudará a amenizar ou a enfrentar o que vem durante o tempo mau...
Outro bom exemplo é o dos pescadores. Em alto-mar, eles podem ser surpreendidos por grandes ondas caso surja uma tempestade de repente (a previsão do tempo nem sempre acerta!). As ondas podem chegar a vários metros de altura e é impossível fugir delas em alto-mar. É claro que os pescadores não controlam as forças da Natureza, nem podem evitar tais ondas; mas eles passam por esse perigo da melhor maneira possível porque, antes de saírem para o mar, preparam-se em terra, quando geralmente o sol ainda brilha acima deles.
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Mais da metade dos bipolares não recebe tratamento
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(...)
COMENTÁRIO
O que é mais impressionante? O bipolar que não sabe que tem o transtorno e por isso não se trata, ou o bipolar que é diagnosticado e decide não se tratar? Antes de opinar, devemos tentar entender o que acontece, penetrar a causa secreta das coisas...
Agora que existe esse excelente estudo para pôr em números quantos bipolares diagnosticados não se tratam, as perguntas a serem respondidas são: 1) por que eles não se tratam quando têm acesso ao tratamento? 2) por que abandonam o tratamento quando podem prosseguir com ele? 3) como fazer com que os bipolares diagnosticados continuem com o tratamento mesmo quando decidem abandoná-lo?
A curto prazo, um bipolar pode se sentir muito bem sem o tratamento, porque não está em crise, mas a longo prazo ele sofrerá bastante porque cedo ou tarde virá uma crise... Do contrário, ou ele não era bipolar e tinha recebido um diagnóstico errado (o que não é impossível nem raro), ou ele curou-se espontaneamente (o que é improvável ou é milagre; mas continuemos falando de Medicina; deixemos os temas religiosos para outro post... Pois bem!).
Sem tratamento, é de esperar que as crises comecem a vir com intervalos cada vez menores entre si, que venham mais fortes, etc. Enfim, que o transtorno "evolua" se um bipolar passa a ter clicagem rápida, se um paciente tipo II recebe o diagnóstico de tipo I, etc.
A grande questão é que não se interna um bipolar a não ser que ele esteja numa crise de mania, por exemplo. A internação é uma medida extrema, mas fundamental para salvar a vida do paciente em certos casos. Todavia, entre uma crise e outra, não se pode nem se deve obrigar o bipolar a se tratar. A decisão deve ser dele. Inteiramente dele. Nesse caso, resta informá-lo e, mais eficiente que informar, "emocioná-lo" com histórias comoventes de pacientes que decidiram não se tratar. Ao final de tudo, a decisão ainda será dele.
Das opções possíveis, "emocionar" é psicologicamente mais eficiente que "informar". Exemplos, na campanha eleitoral política, não faltam. Os políticos, nessa área, têm grande experiência!
Por incrível que pareça, a maioria das pessoas (incluindo não-bipolares) age desta maneira: toma uma decisão emotiva e, só depois, pensa de maneira racional a fim de encontrar uma justificativa para as decisões tomadas de maneira emotiva!
Como mania e depressão são modos de escapar da realidade (por dois caminhos bem diversos, é claro!) um bipolar não pode decidir durante suas crises; mas isso não é tudo. Mesmo não estando em crise, há "sintomas leves", resquícios ou restos que ficam "pairando" entre uma crise e outra. Isso costuma acontecer em 50% do tempo. Sendo assim, mesmo fora das crises, o bipolar pode não estar inteiramente apto a decidir, a não ser que esses resquícios não existam. É complicado? Nem tanto. Se nos lembrarmos que o TAB também já foi chamado de insanidade cíclica, então podemos dizer que ao menos em parte do tempo o bipolar pode decidir o que fazer. E, se ele pode decidir nesses "bons momentos", então ele também pode amenizar ou até evitar aqueles "maus momentos", porque estes costumam nascer daqueles, ou são melhor enfrentados quando o bipolar se prepara de antemão.
Sei que há uma parte do trasntorno que é inevitável, imprevisível, implacável... Mas sei também que há uma parte que só depende do bipolar. Do mesmo modo que as formigas se preparam para o inverno quando a época do ano ainda o permite, os bipolares podem se preparar para as crises quando estão naqueles bons momentos de que falei. A crise pode ser tão implacável ou inevitável para o bipolar como a neve é para uma colônia de formigas durante o inverno, mas tudo o que foi feito durante o tempo bom ajudará a amenizar ou a enfrentar o que vem durante o tempo mau...
Outro bom exemplo é o dos pescadores. Em alto-mar, eles podem ser surpreendidos por grandes ondas caso surja uma tempestade de repente (a previsão do tempo nem sempre acerta!). As ondas podem chegar a vários metros de altura e é impossível fugir delas em alto-mar. É claro que os pescadores não controlam as forças da Natureza, nem podem evitar tais ondas; mas eles passam por esse perigo da melhor maneira possível porque, antes de saírem para o mar, preparam-se em terra, quando geralmente o sol ainda brilha acima deles.
Leia mais
Diário bipolar
O futuro da palavra bipolar
Bipolares não-diagnosticados
12 de junho bipolar
Revelar a bipolaridade ou não revelar. Eis a questão
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