Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Bipolares famosos - Victor Hugo - Desejo
Tradução de Sérgio Jockymann
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar
E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo
Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.
Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada
Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
"Isso é meu"
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem
Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar
Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar
E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar
E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo
Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.
Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada
Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
"Isso é meu"
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem
Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar
Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar
E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar
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terça-feira, 21 de junho de 2011
Bipolares famosos - Mary Shelley - Stanzas
Oh, come to me in dreams, my love!
...I will not ask a dearer bliss;
Come with the starry beams, my love,
...And press mine eyelids with thy kiss.
'Twas thus, as ancient fables tell,
...Love visited a Grecian maid,
Till she disturbed the sacred spell,
...And woke to find her hopes betrayed.
But gentle sleep shall veil my sight,
...And Psyche's lamp shall darkling be,
When, in the visions of the night,
...Thou dost renew thy vows to me.
Then come to me in dreams, my love,
...I will not ask a dearer bliss;
Come with the starry beams, my love,
...And press mine eyelids with thy kiss.
________
Talvez a maioria de vocês conheça a poetisa Mary Shelley (ou Maria Shelley para quem preferir a forma aportuguesada de seu nome) como romancista. Um de seus romances é Frankenstein.
...I will not ask a dearer bliss;
Come with the starry beams, my love,
...And press mine eyelids with thy kiss.
'Twas thus, as ancient fables tell,
...Love visited a Grecian maid,
Till she disturbed the sacred spell,
...And woke to find her hopes betrayed.
But gentle sleep shall veil my sight,
...And Psyche's lamp shall darkling be,
When, in the visions of the night,
...Thou dost renew thy vows to me.
Then come to me in dreams, my love,
...I will not ask a dearer bliss;
Come with the starry beams, my love,
...And press mine eyelids with thy kiss.
________
Talvez a maioria de vocês conheça a poetisa Mary Shelley (ou Maria Shelley para quem preferir a forma aportuguesada de seu nome) como romancista. Um de seus romances é Frankenstein.
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terça-feira, 7 de junho de 2011
Bipolares famosos - Lord Byron - Versos inscritos numa taça feita de um crânio
Tradução de Castro Alves
Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito.
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie a terra aos ossos meus.
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora eu;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as frontes geram tal tristeza
Através da existência — curto dia —,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.
Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito.
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.
Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie a terra aos ossos meus.
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.
Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora eu;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?
Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.
E por que não? Se as frontes geram tal tristeza
Através da existência — curto dia —,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.
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sábado, 14 de maio de 2011
Ela tem olhos tristes
Ela tem olhos tristes,
Uma beleza triste,
E o louro do cabelo está quase negro na foto.
Ela olha, contida,
E também põe um pouco de tristeza
No que olha.
(Ela vai além da foto
Em que está.)
Há dois olhos azuis,
Mas cinzas, melancólicos
No retrato em preto e branco.
É como ver o céu
Num dia nublado
E dar-se falta do azul.
Uma beleza triste,
E o louro do cabelo está quase negro na foto.
Ela olha, contida,
E também põe um pouco de tristeza
No que olha.
(Ela vai além da foto
Em que está.)
Há dois olhos azuis,
Mas cinzas, melancólicos
No retrato em preto e branco.
É como ver o céu
Num dia nublado
E dar-se falta do azul.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Mãos dadas, de Drummond
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o meu futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
Também não cantarei o meu futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Dobrada à moda do Porto, de Fernando Pessoa
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Álvaro de Campos
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sexta-feira, 25 de março de 2011
Dois olhos de fotografia
Dois olhos de fotografia
Me olham eternamente
Enquanto mantenho
Diante de mim a moldura.
E chega o tempo
Em que é preciso não olhar.
Há um quê de alma na foto,
Algo que me olha também,
Como se fosse a própria pessoa
Em vez de uma imagem.
Diante de minhas retinas,
Repousam dois olhos claros
Numa face alva,
Tão bela e jovem.
E eu a olhar
O que me olha e não me vê.
E chega o momento
Em que eu não posso mais olhar,
Porque já me vence a foto
Na arte de encarar.
Derrotado,
Procuro guardá-la,
Mantê-la em segredo
Nalgum lugar seguro
Só para outro dia
Ser vencido mais uma vez.
Me olham eternamente
Enquanto mantenho
Diante de mim a moldura.
E chega o tempo
Em que é preciso não olhar.
Há um quê de alma na foto,
Algo que me olha também,
Como se fosse a própria pessoa
Em vez de uma imagem.
Diante de minhas retinas,
Repousam dois olhos claros
Numa face alva,
Tão bela e jovem.
E eu a olhar
O que me olha e não me vê.
E chega o momento
Em que eu não posso mais olhar,
Porque já me vence a foto
Na arte de encarar.
Derrotado,
Procuro guardá-la,
Mantê-la em segredo
Nalgum lugar seguro
Só para outro dia
Ser vencido mais uma vez.
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quarta-feira, 23 de março de 2011
Ela gosta de montar a cavalo
Ela gosta de montar a cavalo
E não se preocupa com certas coisas,
Não se atém ao que será.
Se ela sofre,
É por conta do presente
Muito mais que por conta do futuro.
Ela não faz planos,
Deseja ser feliz agora,
Menos entristecida um pouco.
Não há esperanças de longo prazo.
Não há paciência para esperar
O que promete vir e nem sempre vem.
Ela se casaria com um homem de sessenta
Embora tenha dezoito.
Não há por que pensar demais.
É preciso tentar também,
Tatear a vida e não só imaginar.
Ela está triste agora
E não sabe bem por quê.
Ela tem um nome, uma vida,
Mas há algo que lhe falta.
Talvez esteja aqui ou ali,
Mas ela vai sozinha no escuro,
Tateando o que pode ou não acontecer.
Há várias possibilidades
E ela se preocupa apenas
Com o que é mais provável.
Talvez chova de tarde,
Mas ela não traz ao meio-dia
Nenhum guarda-chuva.
Ela é bonita,
Tem um olhar triste.
O que lhe falta é um pouco de felicidade
Quando não está cavalgando.
Se o mundo fosse um cavalo apenas,
Ela seria mais feliz.
E não se preocupa com certas coisas,
Não se atém ao que será.
Se ela sofre,
É por conta do presente
Muito mais que por conta do futuro.
Ela não faz planos,
Deseja ser feliz agora,
Menos entristecida um pouco.
Não há esperanças de longo prazo.
Não há paciência para esperar
O que promete vir e nem sempre vem.
Ela se casaria com um homem de sessenta
Embora tenha dezoito.
Não há por que pensar demais.
É preciso tentar também,
Tatear a vida e não só imaginar.
Ela está triste agora
E não sabe bem por quê.
Ela tem um nome, uma vida,
Mas há algo que lhe falta.
Talvez esteja aqui ou ali,
Mas ela vai sozinha no escuro,
Tateando o que pode ou não acontecer.
Há várias possibilidades
E ela se preocupa apenas
Com o que é mais provável.
Talvez chova de tarde,
Mas ela não traz ao meio-dia
Nenhum guarda-chuva.
Ela é bonita,
Tem um olhar triste.
O que lhe falta é um pouco de felicidade
Quando não está cavalgando.
Se o mundo fosse um cavalo apenas,
Ela seria mais feliz.
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sexta-feira, 11 de março de 2011
Canção amiga, de Drummond
Este blog, esta bobagenzinha aqui já chegou aos 10 seguidores (contando comigo, é claro! eu também me sigo com medo de me perder...). E o blog também vai chegando aos 1000 acessos/cliques/visitas/etc.
Às boas almas que vistam este espaço (tenham elas entrado aqui por engano ou não), deixo abaixo algo para comemorar. Não me ocorre nada melhor que este poema do Drummond. (Sim, sim; digo do Drummond e não de Drummond porque já temos alguma intimidade; já o leio há um bom tempo e creio que, de algum modo, ele saiba disso...)
O Mastigando Estrelas (voltemos à vaca fria) é um blog de poesia ou deveria sê-lo; mas acabou tendo alguns textos em prosa, porque, como dizem, nada é perfeito. O blog (ou blogue, porque também há visitas de além-mar) vai ficando e, ao que parece, agradando ao menos a algumas pessoas... Incrível? Incrível. O que poderia ser um deserto como tantos blogs de poesia vai sendo pouco a pouco visitado e revisitado. Mas, pensando bem, ao menos alguns dos milagres da Bíblia aconteceram no deserto. É... faz sentido.
Mas não; não falemos de religião. Este blog não é religioso nem ateu... (O que talvez signifique que ele não vá nem pro Céu nem pro Inferno. Será?)
Como diz o texto acima do contador de acessos, "Estamos contando o número de visitas, não a qualidade delas". Pois é! Esta última é incontável, imensurável, incalculável... Não posso medir o que sente cada leitor ao entrar aqui. Talvez o melhor contador da qualidade das visitas seja o espaço para comentários. Se levarmos em conta o número de acessos (não, não são acessos de raiva, o blog não é tão ruim assim!), se levarmos em conta o número de visitas, veremos que a quantidade de comentários é relevante!
Obviamente, não há um comentário por visita; mas, quanto mais perto chegarmos disso, mais aquele contador ou medidor da qualidade das visitas estará girando... Assim penso eu, desde meu humilde ponto de vista ou engano. Digo besteiras? Bem... é melhor que eu as diga aqui que em outro lugar. Aqui estou à vontade para dizê-las, como imagino que vocês estejam à vontade para lê-las. Mas, pensando bem, não é assim a maioria dos blogs? Salvo alguns poucos blogueiros profissionais, quem, dentre nós, está mantendo um blog por obrigação? para aborrecer-se? suportando mil preocupações?
Um blog (ao menos este aqui) é uma esquina onde dizemos aquelas bobagenzinhas enquanto as pessoas e os carros vão passando logo ali... (Bem.. se você prefere outra metáfora, direi que este blog é a mesa de algum Café, onde as pessoas se sentam para falar e passar uns minutos agradáveis. É... também gosto desta metáfora; é até melhor que a outra, a da esquina...)
Creio que todos tenhamos nossas bobagenzinhas. E eu tenho esta aqui como passatempo, este Mastigando Estrelas.
Sei que muitos blogs são sérios, recebem todo o cuidado de seus donos, etc.; mas este aqui, ao menos este aqui, é minha bobagenzinha...
CANÇÃO AMIGA
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Às boas almas que vistam este espaço (tenham elas entrado aqui por engano ou não), deixo abaixo algo para comemorar. Não me ocorre nada melhor que este poema do Drummond. (Sim, sim; digo do Drummond e não de Drummond porque já temos alguma intimidade; já o leio há um bom tempo e creio que, de algum modo, ele saiba disso...)
O Mastigando Estrelas (voltemos à vaca fria) é um blog de poesia ou deveria sê-lo; mas acabou tendo alguns textos em prosa, porque, como dizem, nada é perfeito. O blog (ou blogue, porque também há visitas de além-mar) vai ficando e, ao que parece, agradando ao menos a algumas pessoas... Incrível? Incrível. O que poderia ser um deserto como tantos blogs de poesia vai sendo pouco a pouco visitado e revisitado. Mas, pensando bem, ao menos alguns dos milagres da Bíblia aconteceram no deserto. É... faz sentido.
Mas não; não falemos de religião. Este blog não é religioso nem ateu... (O que talvez signifique que ele não vá nem pro Céu nem pro Inferno. Será?)
Como diz o texto acima do contador de acessos, "Estamos contando o número de visitas, não a qualidade delas". Pois é! Esta última é incontável, imensurável, incalculável... Não posso medir o que sente cada leitor ao entrar aqui. Talvez o melhor contador da qualidade das visitas seja o espaço para comentários. Se levarmos em conta o número de acessos (não, não são acessos de raiva, o blog não é tão ruim assim!), se levarmos em conta o número de visitas, veremos que a quantidade de comentários é relevante!
Obviamente, não há um comentário por visita; mas, quanto mais perto chegarmos disso, mais aquele contador ou medidor da qualidade das visitas estará girando... Assim penso eu, desde meu humilde ponto de vista ou engano. Digo besteiras? Bem... é melhor que eu as diga aqui que em outro lugar. Aqui estou à vontade para dizê-las, como imagino que vocês estejam à vontade para lê-las. Mas, pensando bem, não é assim a maioria dos blogs? Salvo alguns poucos blogueiros profissionais, quem, dentre nós, está mantendo um blog por obrigação? para aborrecer-se? suportando mil preocupações?
Um blog (ao menos este aqui) é uma esquina onde dizemos aquelas bobagenzinhas enquanto as pessoas e os carros vão passando logo ali... (Bem.. se você prefere outra metáfora, direi que este blog é a mesa de algum Café, onde as pessoas se sentam para falar e passar uns minutos agradáveis. É... também gosto desta metáfora; é até melhor que a outra, a da esquina...)
Creio que todos tenhamos nossas bobagenzinhas. E eu tenho esta aqui como passatempo, este Mastigando Estrelas.
Sei que muitos blogs são sérios, recebem todo o cuidado de seus donos, etc.; mas este aqui, ao menos este aqui, é minha bobagenzinha...
CANÇÃO AMIGA
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Ela quer felicidade agora
[Que tem a ver com o post "Modelos de Felicidade"]
Ela já amou
Uma vez,
Duas,
Três... muitas.
Mas ela sabe, decide
Que é preciso não sofrer
Ou, pelo menos,
Sofrer e não acomodar-se.
Os arranhões na carne
São do caminho,
Dos espinhos do caminho.
Mas a felicidade está mais adiante
E é preciso não estacar,
Não sangrar de todo
No meio do caminho.
São estrepes apenas,
Ainda que machuquem muito.
Ela ama e pensa que é definitivo,
E concorda com Proust
"Que não se ama senão uma vez",
E depois desama e volta a amar.
Dessa maneira,
Ela entende que o coração não se fecha de todo.
Ou, ainda,
Não se fecha eternamente de todo.
E já diverge de Proust.
Ela, na verdade, não conhece Proust,
Nem sabe Francês,
Mas já pôs o coração à prova muitas vezes
E conhece a vida.
"Le Temp Retrouvé" dela
Seria muito maior
Que o de Proust
Embora ela seja jovem ainda.
Ela vive como quem corre contra o tempo;
Num dia acha mil dias
E assim age para satisfazer mil vontades,
Milhões de sonhos.
Ela deseja aproveitar a ocasião,
Num "carpe diem" mais vulgar que filosófico
(Horácio que a perdoe).
Beijar enquanto tem vontade.
E ela beija,
Dá muitas vezes.
Vulgarmente dá.
Pensar muito é perder tempo
E ela segue adiante desse modo.
Talvez ela gostasse de ler Proust
Se achasse um livro pequeno,
Algum que fosse muito fino.
Mas, na verdade, ela pouco lê.
Um livro toma tempo
E ela quase sempre está com pressa,
Impaciente.
Para ela uma frase basta,
Uma frase de efeito.
Ela faz o que lhe convém
No momento atual,
Ainda que isto não lhe seja
O melhor para o futuro
Ou para a vida inteira.
E o futuro sempre chega
E nunca lhe é bom,
Agradável o bastante.
Ela se agarra ao presente,
Pensa que talvez
Não tenha uma vida inteira.
Há muito já com o que se preocupar
E no fundo,
No que diz respeito a querer de verdade,
Ela sempre foi meio preguiçosa.
Ela mesma o sabe.
Ela faz muitas coisas às pressas
E pouco pensa a respeito;
Quase nunca se arrepende,
Nunca pede desculpas.
Ela, sozinha,
Nunca faz nada importante,
Porque no fundo é insegura, incapaz,
Ainda que se esforce para mostrar o contrário;
Porque precisa que os outros trabalhem para ela;
Porque precisa de alguém em quem pôr a culpa
Se alguma coisa sair errada.
Ela nunca tem culpa;
Está sempre certa.
Ela é muito vaidosa
E age assim
Porque a beleza que tem é tudo
De que possa valer-se na vida.
A beleza é sua única herança...
A bem dizer,
Não é muito bonita,
Mas usa a beleza que tem
Para prometer recompensas
A quem lhe for útil.
E para isso,
Para as pequenas coisas de que mais precisa,
Essa beleza lhe basta.
Não é bonita em excesso
Nem feia o bastante
E o flerte é sua moeda corrente
Para comprar pequenas gentilezas,
Um favor
Ou um maço de cigarros.
Ela já amou
Uma vez,
Duas,
Três... e já entendeu
Que amar dessa forma
É uma rotina
Para quem não sabe o que quer,
Para quem não sabe ler
O próprio coração.
E assim ela faz,
Está sempre a amar
Um depois do outro
Infinitamente
(Ou vários a um só tempo
Sem amar ninguém de verdade).
Ainda que só faça o quer o tempo todo,
Está sempre insatisfeita
No final das contas.
Gosta e desgosta
E já não entende bem
Quando ama,
Quando sofre
Ou quando deixa de amar,
De sofrer.
Para ela
Já é tudo tão repetido
Que não procura prestar atenção
Ao que sente,
Ao que vai em seu coração...
E, se alguma novidade lhe vem,
Já presume que o Novo
Seja igual ao Velho
Para não dar-se ao trabalho da análise,
O de compreender,
O de parar e pensar.
Ela quer felicidade agora;
Não sabe construí-la.
Ela não se dá ao tempo;
Tem pressa
E em sua pressa há que caber mil coisas.
Ela já amou muitas vezes
E agora quer apenas alguém.
Ela já amou
Uma vez,
Duas,
Três... muitas.
Mas ela sabe, decide
Que é preciso não sofrer
Ou, pelo menos,
Sofrer e não acomodar-se.
Os arranhões na carne
São do caminho,
Dos espinhos do caminho.
Mas a felicidade está mais adiante
E é preciso não estacar,
Não sangrar de todo
No meio do caminho.
São estrepes apenas,
Ainda que machuquem muito.
Ela ama e pensa que é definitivo,
E concorda com Proust
"Que não se ama senão uma vez",
E depois desama e volta a amar.
Dessa maneira,
Ela entende que o coração não se fecha de todo.
Ou, ainda,
Não se fecha eternamente de todo.
E já diverge de Proust.
Ela, na verdade, não conhece Proust,
Nem sabe Francês,
Mas já pôs o coração à prova muitas vezes
E conhece a vida.
"Le Temp Retrouvé" dela
Seria muito maior
Que o de Proust
Embora ela seja jovem ainda.
Ela vive como quem corre contra o tempo;
Num dia acha mil dias
E assim age para satisfazer mil vontades,
Milhões de sonhos.
Ela deseja aproveitar a ocasião,
Num "carpe diem" mais vulgar que filosófico
(Horácio que a perdoe).
Beijar enquanto tem vontade.
E ela beija,
Dá muitas vezes.
Vulgarmente dá.
Pensar muito é perder tempo
E ela segue adiante desse modo.
Talvez ela gostasse de ler Proust
Se achasse um livro pequeno,
Algum que fosse muito fino.
Mas, na verdade, ela pouco lê.
Um livro toma tempo
E ela quase sempre está com pressa,
Impaciente.
Para ela uma frase basta,
Uma frase de efeito.
Ela faz o que lhe convém
No momento atual,
Ainda que isto não lhe seja
O melhor para o futuro
Ou para a vida inteira.
E o futuro sempre chega
E nunca lhe é bom,
Agradável o bastante.
Ela se agarra ao presente,
Pensa que talvez
Não tenha uma vida inteira.
Há muito já com o que se preocupar
E no fundo,
No que diz respeito a querer de verdade,
Ela sempre foi meio preguiçosa.
Ela mesma o sabe.
Ela faz muitas coisas às pressas
E pouco pensa a respeito;
Quase nunca se arrepende,
Nunca pede desculpas.
Ela, sozinha,
Nunca faz nada importante,
Porque no fundo é insegura, incapaz,
Ainda que se esforce para mostrar o contrário;
Porque precisa que os outros trabalhem para ela;
Porque precisa de alguém em quem pôr a culpa
Se alguma coisa sair errada.
Ela nunca tem culpa;
Está sempre certa.
Ela é muito vaidosa
E age assim
Porque a beleza que tem é tudo
De que possa valer-se na vida.
A beleza é sua única herança...
A bem dizer,
Não é muito bonita,
Mas usa a beleza que tem
Para prometer recompensas
A quem lhe for útil.
E para isso,
Para as pequenas coisas de que mais precisa,
Essa beleza lhe basta.
Não é bonita em excesso
Nem feia o bastante
E o flerte é sua moeda corrente
Para comprar pequenas gentilezas,
Um favor
Ou um maço de cigarros.
Ela já amou
Uma vez,
Duas,
Três... e já entendeu
Que amar dessa forma
É uma rotina
Para quem não sabe o que quer,
Para quem não sabe ler
O próprio coração.
E assim ela faz,
Está sempre a amar
Um depois do outro
Infinitamente
(Ou vários a um só tempo
Sem amar ninguém de verdade).
Ainda que só faça o quer o tempo todo,
Está sempre insatisfeita
No final das contas.
Gosta e desgosta
E já não entende bem
Quando ama,
Quando sofre
Ou quando deixa de amar,
De sofrer.
Para ela
Já é tudo tão repetido
Que não procura prestar atenção
Ao que sente,
Ao que vai em seu coração...
E, se alguma novidade lhe vem,
Já presume que o Novo
Seja igual ao Velho
Para não dar-se ao trabalho da análise,
O de compreender,
O de parar e pensar.
Ela quer felicidade agora;
Não sabe construí-la.
Ela não se dá ao tempo;
Tem pressa
E em sua pressa há que caber mil coisas.
Ela já amou muitas vezes
E agora quer apenas alguém.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Poema em linha reta, de Fernando Pessoa
[Que tem a ver com o post "Perfeita Perfeição"]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
No olhar
Mesmo sem pronunciares palavra,
Posso muito bem entender-te.
Tenho olhos de compreensão
Para teus olhos de saber dizer.
De onde estás,
Diz em silêncio teus ais,
E de onde estou
Já te acalentarei um pouco:
Teus olhos, nossos olhos,
Eles formam uma ponte,
Abraçam-se no ar,
Constroem castelos
No espaço entre os corpos.
No olhar,
Há mil palavras de um dicionário particular,
E tudo se diz desse modo,
Fora do léxico, do vernáculo.
E assim olho para ti
Em busca de teu discurso.
Meus olhos são ouvidos
Para teus olhos que são boca.
No olhar,
Há mil dizeres escondidos,
Escritos com a alma.
Ou, ainda,
Com alma e coração.
Os teus olhos, os nossos olhos,
Eles formam um diálogo
De saber ouvir corações
No silêncio dos colóquios.
Teu olhar, nossos olhares
São seres que se abraçam
Na intimidade do silêncio,
Na extrema ausência do toque.
Para teus olhos de saber dizer,
Tenho olhos de saber ouvir
E já há, entre nós, um segredo
Dito no ar,
Que só pode ouvir
Quem sabe olhar.
Posso muito bem entender-te.
Tenho olhos de compreensão
Para teus olhos de saber dizer.
De onde estás,
Diz em silêncio teus ais,
E de onde estou
Já te acalentarei um pouco:
Teus olhos, nossos olhos,
Eles formam uma ponte,
Abraçam-se no ar,
Constroem castelos
No espaço entre os corpos.
No olhar,
Há mil palavras de um dicionário particular,
E tudo se diz desse modo,
Fora do léxico, do vernáculo.
E assim olho para ti
Em busca de teu discurso.
Meus olhos são ouvidos
Para teus olhos que são boca.
No olhar,
Há mil dizeres escondidos,
Escritos com a alma.
Ou, ainda,
Com alma e coração.
Os teus olhos, os nossos olhos,
Eles formam um diálogo
De saber ouvir corações
No silêncio dos colóquios.
Teu olhar, nossos olhares
São seres que se abraçam
Na intimidade do silêncio,
Na extrema ausência do toque.
Para teus olhos de saber dizer,
Tenho olhos de saber ouvir
E já há, entre nós, um segredo
Dito no ar,
Que só pode ouvir
Quem sabe olhar.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Tabacaria, de Fernando Pessoa
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Ela já recolhe as pequenas alegrias
Ela já recolhe as pequenas alegrias
Do seu dia-a-dia
Para enfrentar a grande dor de todos os dias.
As coisas acontecem
E algumas não ficam para trás.
O tempo transcorre e não leva consigo
Tudo o que trouxe.
E o que devia ter passado,
Não passa:
Arrasta-se ao longo dos anos.
E o Passado alcança o Presente
Mantendo vivo o que devia estar morto.
Há uma grande dor a vencer
E uma menina quebrando o gelo
De um inverno que ela mal suporta.
Aos poucos,
Rompe-se o "iceberg"
No mar de todas as coisas
Enquanto outro
Se forma acolá, mais adiante.
E rompe-se aos poucos,
Porque ela não possui forças para parti-lo de vez.
E ela já recolhe as pequenas alegrias
Do seu dia-a-dia
Para conter a grande dor de todos os dias.
Penso nela e compreendo,
Desvendo o exemplo:
Não há força para vencer,
Mas resistir
E talvez avançar um pouco
Contra aquilo que é gigantesco,
Maior que nós.
Vençamos outro dia
O que não podemos derrotar hoje.
Do seu dia-a-dia
Para enfrentar a grande dor de todos os dias.
As coisas acontecem
E algumas não ficam para trás.
O tempo transcorre e não leva consigo
Tudo o que trouxe.
E o que devia ter passado,
Não passa:
Arrasta-se ao longo dos anos.
E o Passado alcança o Presente
Mantendo vivo o que devia estar morto.
Há uma grande dor a vencer
E uma menina quebrando o gelo
De um inverno que ela mal suporta.
Aos poucos,
Rompe-se o "iceberg"
No mar de todas as coisas
Enquanto outro
Se forma acolá, mais adiante.
E rompe-se aos poucos,
Porque ela não possui forças para parti-lo de vez.
E ela já recolhe as pequenas alegrias
Do seu dia-a-dia
Para conter a grande dor de todos os dias.
Penso nela e compreendo,
Desvendo o exemplo:
Não há força para vencer,
Mas resistir
E talvez avançar um pouco
Contra aquilo que é gigantesco,
Maior que nós.
Vençamos outro dia
O que não podemos derrotar hoje.
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Poesia
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Amor ao fogo
Não busques amor
Para depois buscares felicidade.
Não separes o que deve ser
Uma só coisa.
Amando, não sejas melancólica,
Porque não estarás desse modo amando.
Não sejas falsa com o verdadeiro Amor,
Não o chames assim
Se não há felicidade em ti.
Amor e felicidade coincidem
Quando amar é verdadeiro.
Não busques uma coisa de cada vez,
Porque acharás as duas atadas.
Teus olhos devem abrir
Para um sonho acordado.
Não te iludas:
Se já estás amando,
Não feches os olhos para sonhar,
Porque não estarás desse modo amando.
Amor é palpável, real.
"Amor é bom, não maltrata".
Amor não impõe condições.
Teu coração amará a outro ser
Da maneira que ele for.
Não o queiras de outro modo
Para que depois o ames.
Amor é honesto, sincero.
Amor ao fogo,
Derretido e limpo,
Não revela tristezas.
Para depois buscares felicidade.
Não separes o que deve ser
Uma só coisa.
Amando, não sejas melancólica,
Porque não estarás desse modo amando.
Não sejas falsa com o verdadeiro Amor,
Não o chames assim
Se não há felicidade em ti.
Amor e felicidade coincidem
Quando amar é verdadeiro.
Não busques uma coisa de cada vez,
Porque acharás as duas atadas.
Teus olhos devem abrir
Para um sonho acordado.
Não te iludas:
Se já estás amando,
Não feches os olhos para sonhar,
Porque não estarás desse modo amando.
Amor é palpável, real.
"Amor é bom, não maltrata".
Amor não impõe condições.
Teu coração amará a outro ser
Da maneira que ele for.
Não o queiras de outro modo
Para que depois o ames.
Amor é honesto, sincero.
Amor ao fogo,
Derretido e limpo,
Não revela tristezas.
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