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segunda-feira, 7 de março de 2011

Ela quer felicidade agora

[Que tem a ver com o post "Modelos de Felicidade"]

Ela já amou
Uma vez,
Duas,
Três... muitas.
Mas ela sabe, decide
Que é preciso não sofrer
Ou, pelo menos,
Sofrer e não acomodar-se.

Os arranhões na carne
São do caminho,
Dos espinhos do caminho.
Mas a felicidade está mais adiante
E é preciso não estacar,
Não sangrar de todo
No meio do caminho.

São estrepes apenas,
Ainda que machuquem muito.

Ela ama e pensa que é definitivo,
E concorda com Proust
"Que não se ama senão uma vez",
E depois desama e volta a amar.
Dessa maneira,
Ela entende que o coração não se fecha de todo.
Ou, ainda,
Não se fecha eternamente de todo.

E já diverge de Proust.

Ela, na verdade, não conhece Proust,
Nem sabe Francês,
Mas já pôs o coração à prova muitas vezes
E conhece a vida.

"Le Temp Retrouvé" dela
Seria muito maior
Que o de Proust
Embora ela seja jovem ainda.

Ela vive como quem corre contra o tempo;
Num dia acha mil dias
E assim age para satisfazer mil vontades,
Milhões de sonhos.

Ela deseja aproveitar a ocasião,
Num "carpe diem" mais vulgar que filosófico
(Horácio que a perdoe).
Beijar enquanto tem vontade.

E ela beija,
Dá muitas vezes.
Vulgarmente dá.

Pensar muito é perder tempo
E ela segue adiante desse modo.
Talvez ela gostasse de ler Proust
Se achasse um livro pequeno,
Algum que fosse muito fino.
Mas, na verdade, ela pouco lê.

Um livro toma tempo
E ela quase sempre está com pressa,
Impaciente.
Para ela uma frase basta,
Uma frase de efeito.

Ela faz o que lhe convém
No momento atual,
Ainda que isto não lhe seja
O melhor para o futuro
Ou para a vida inteira.

E o futuro sempre chega
E nunca lhe é bom,
Agradável o bastante.

Ela se agarra ao presente,
Pensa que talvez
Não tenha uma vida inteira.
Há muito já com o que se preocupar
E no fundo,
No que diz respeito a querer de verdade,
Ela sempre foi meio preguiçosa.
Ela mesma o sabe.

Ela faz muitas coisas às pressas
E pouco pensa a respeito;
Quase nunca se arrepende,
Nunca pede desculpas.

Ela, sozinha,
Nunca faz nada importante,
Porque no fundo é insegura, incapaz,
Ainda que se esforce para mostrar o contrário;
Porque precisa que os outros trabalhem para ela;
Porque precisa de alguém em quem pôr a culpa
Se alguma coisa sair errada.

Ela nunca tem culpa;
Está sempre certa.

Ela é muito vaidosa
E age assim
Porque a beleza que tem é tudo
De que possa valer-se na vida.

A beleza é sua única herança...

A bem dizer,
Não é muito bonita,
Mas usa a beleza que tem
Para prometer recompensas
A quem lhe for útil.
E para isso,
Para as pequenas coisas de que mais precisa,
Essa beleza lhe basta.

Não é bonita em excesso
Nem feia o bastante
E o flerte é sua moeda corrente
Para comprar pequenas gentilezas,
Um favor
Ou um maço de cigarros.

Ela já amou
Uma vez,
Duas,
Três... e já entendeu
Que amar dessa forma
É uma rotina
Para quem não sabe o que quer,
Para quem não sabe ler
O próprio coração.

E assim ela faz,
Está sempre a amar
Um depois do outro
Infinitamente
(Ou vários a um só tempo
Sem amar ninguém de verdade).

Ainda que só faça o quer o tempo todo,
Está sempre insatisfeita
No final das contas.
Gosta e desgosta
E já não entende bem
Quando ama,
Quando sofre
Ou quando deixa de amar,
De sofrer.

Para ela
Já é tudo tão repetido
Que não procura prestar atenção
Ao que sente,
Ao que vai em seu coração...
E, se alguma novidade lhe vem,
Já presume que o Novo
Seja igual ao Velho
Para não dar-se ao trabalho da análise,
O de compreender,
O de parar e pensar.

Ela quer felicidade agora;
Não sabe construí-la.

Ela não se dá ao tempo;
Tem pressa
E em sua pressa há que caber mil coisas.

Ela já amou muitas vezes
E agora quer apenas alguém.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Modelos de Felicidade

TEXTO DA JÉSSICA

(...) "Se minha vida terminasse amanhã, o que eu teria aproveitado?". Eu te respondo. No meu caso: NADA! Não tomei banho de chuva, nunca fugi, não me lembro de quebrar nenhuma regra, nunca discuti feio com ninguém, nunca fui num parque de diversões, nunca fui na praia [verdade ¬¬], nunca fui no zoológico, fui apenas duas vezes no cinema, só fui em um show na minha vida [com O6 anos, e quase morri pisoteada], não me divirto muito, não tenho nenhum AMIGO-SUPER-GRUDADO-BEST-FRIEND-FOREVER [se é que me entende]. (...)


COMENTÁRIO

Talvez a melhor maneira de ser infeliz seja seguir um modelo de felicidade inventado por outras pessoas. Exemplo: Alguém se sente muito feliz tomando banhos de chuva, quebrando regras, discutindo com alguém para descarregar a raiva, indo a parques de diversão, indo à praia, etc. Então você vê essa pessoa feliz e decide imitá-la para ser igualmente feliz. Você a imita e espera. O tempo passa e a felicidade não vem. Você seguiu um modelo de felicidade e ele não funcionou. Então você pensa: "O que eu fiz de errado?"

Há um modelo de felicidade que todos procuram seguir, mas ele não serve para todos. Talvez você não se sinta feliz tomando banhos de chuva, quebrando regras. Talvez você odeie ir à praia. Mas você prova essas coisas porque outras pessoas as experimentaram e foram felizes. Elas são a propaganda... Você, o consumidor de um estilo de vida, de uma maneira de pensar...

Talvez você seja feliz evitando a chuva, respeitando regras, sendo gentil, etc. Talvez você seja feliz fazendo o que gosta em vez de procurar fazer aquilo que os outros gostam. Há um modelo de felicidade para a maioria? Não se preocupe. Pode ser que o seu modelo seja aquele da minoria ou até mesmo um modelo único, que só serve para você. Isso é ruim? De modo algum. A felicidade não é a mesma para todos...

Quer um exemplo? Aqui está.

Jéssica vai a um restaurante. Ela se senta à mesa e pede salmão (suponhamos que ela goste de peixe, ainda que more em São Paulo, longe do mar). É o que ela gosta e ela se sente contente com o prato que pediu. Mas, no auge de sua satisfação, ela olha em volta para ver o que as outras pessoas estão comendo. Curiosamente, todos os demais estão comendo carne. Jéssica então se pergunta o que estaria errado. Por que só ela está comendo peixe? Não é a carne vermelha que deixa os outros felizes? E ela conclui: a felicidade está na carne de boi, só na carne de boi e no purê de batatas...

Nos dias seguintes, Jéssica continua indo a esse restaurante. Mas agora ela só pede carne. O prato não lhe agrada, mas ela come. E continua comendo nos próximos dias, nos próximos meses, nos próximos anos.... Para sempre. É o prato que deixa todo o mundo feliz, então também ela será feliz com esse prato. Mas... o que há de errado? Ela não está feliz como os outros... O que há de errado com ela?

Com ela, nada. Mas olhar para os lados tem feito um bocado de gente feliz se tornar infeliz... E olhar para os lados pode ser observar a vida do vizinho ou ligar a TV...

Algumas pessoas não acompanham a novela das oito, isto é, não acompanham a cena, a trama, o que acontece, os diálogos... Elas se fixam nos móveis da mansão do personagem rico, nas roupas da personagem bem-sucedida, etc. É o que elas provavelmente vão comprar para que sejam felizes e serão infelizes até que possam comprar tais produtos...

Mas... há algum mal em querer essas coisas? Mal nenhum. Tudo o que há no mundo está aí para a nossa satisfação. Entretanto, em que medida esses produtos preenchem um vazio ou uma necessidade na vida dessas pessoas?

Curiosamente, algumas pessoas comem carne quando preferem peixe. Vão passar férias na praia quando preferem estar nas montanhas. Tomam banho de banheira quando preferem uma ducha. Vestem a roupa X quando se sentem melhor com a roupa Y. Procuram namorar alguém que se pareça com o mocinho ou a mocinha da novela ou daquele filme, porque também há um modelo para namorados, casamentos, lares, etc.

A verdade é que você vai encontrar os mesmos tipos de pessoas/influências se você só frequenta os mesmos meios: a academia, o museu ou as festas de rock... E estas pessoas de algum modo serão o seu mundo se você só percorre essa órbita acanhada no seu dia-a-dia... Talvez você precise variar de ambiente para variar de pessoas...

Igualmente, talvez o seu "par perfeito" ideal seja diferente do da maioria. Não se sinta obrigada a ter um namorado como o mocinho do filme, porque daqui a um ano ou dois haverá outro filme de sucesso e o mocinho pode ser bem diferente... Além do mais, não vivemos num filme...

Em poucas palavras, não deixe o meio ou a propaganda influenciar você... Tudo o que vemos são opções; não escolhas...

Como disse, a felicidade não é a mesma para todos, ou cada um de nós a alcança por meios diversos... Desse modo, não é errado não gostar de banhos de chuva. O que é errado (para não dizer curioso) é tomar um banho de chuva quando você não se sente bem com isso...

A TV, os artistas, as pessoas famosas que aparecem na mídia costumam ditar modelos de felicidade. Devemos segui-los? Nem sempre. Não somos nós que devemos nos adaptar a esses modelos, mas os modelos, sim, é que devem se adaptar a nossos gostos. Você, por acaso, compraria uma calça que não lhe serve? Provavelmente você só compra calças que se adaptam a seu corpo. Com os modelos de felicidade é (ou deveria ser) a mesma coisa.

Seguir um modelo de felicidade que não nos faz felizes, é como usar uma calça que nos tolhe os movimentos ou nos tira o fôlego...

De modo geral, as pessoas não sabem exatamente como agir para se sentirem felizes. Então elas buscam um modelo, uma fórmula mágica. Em poucas palavras, imitam alguém... Obviamente, essas pessoas não estão satisfeitas com algo em suas vidas, querem satisfação e, como não podem experimentar todas as coisas do mundo para descobrir o que lhes agrada de verdade, procuram experimentar o que outras pessoas já experimentaram... Não querem perder tempo, mas, às vezes, gastam nisso uma vida inteira...

É como se você deixasse de ir ao médico e tomasse o remédio que o seu vizinho tomou. E você pensa: "O remédio lhe fez bem, então também fará a mim." Mas você não tem a mesma enfermidade e o remédio lhe faz mal ou não faz o efeito desejado. Isso acontece porque você pulou uma etapa, isto é, você não deixou que o médico analisasse o seu caso...

Para ser feliz, também é necessária uma análise. E quem faz essa análise é você mesmo. Seguir modelos de felicidade de terceiros é como tomar remédios que o médico não prescreveu para você. Pode dar certo, pode não dar... E você pode se iludir um bom tempo até perceber que não está sendo feliz... Nesse momento, você pode voltar atrás, pode continuar se enganando, pode nem perceber claramente que está infeliz... Quem dita as regras da sua felicidade são os outros? Bem... isso não deixa de ser uma forma de escravidão. E nunca vi ninguém feliz que não fosse realmente livre...

É, Jéssica, eu te entendo...


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